Assunto: Vidas Secas - Graciliano Ramos
A família de retirantes, formada pelo vaqueiro Fabiano, Sinhá Vitória, dois filhos e a cachorra Baleia vara o sertão nordestino a procura de um lugar melhor. Desalentados pela fome e o cansaço, arrastam-se pelo solo empobrecido pela seca, levando consigo o pouco que lhes resta.
O filho menor cai, sem forças para continuar e o pai, irritado, coloca-o nas costas, penalizado com a condição da família. Procura saciar a fome, sacrificando o papagaio e o preá caçado por Baleia.
Invadem uma fazenda abandonada, onde, aliviado, Fabiano se julga homem, para, em seguida, considerar-se mais um “bicho”, capaz de vencer todas as dificuldades.” Passou a tomar conta de casa alheia, do gado que restava, entendendo-se com os animais e empregando a mesma linguagem restrita a grunhidos e monossílabos, para comunicar-se com os parentes.
Quando o dono da fazenda retorna, expulsa a família do vaqueiro, que se mostra prestativo e humilde e acaba conquistando a vaga de capataz.
Um dia, Fabiano vai à cidade fazer compras e, quando toma uma cachaça em um bar, é convidado para um jogo de cartas por um soldado amarelo. Perde todo o dinheiro e sai da partida acabrunhado. O soldado, dizendo-se ofendido, pelo abandono brusco do carteado, acaba ocasionando a prisão do vaqueiro, onde é impiedosamente surrado sem Ter como defender-se, amargando a revolta.
Sinha Vitória, que não consegue realizar seu sonho de possuir uma “cama de lastro de couro”, um dia revolta-se com a rotina doméstica, os filhos e a cachorra Baleia. Mas , em seguida, resolve conservar as esperanças, imaginando diversas maneiras de obtê-la, tornando-se quase feliz.
Ao chegarem as chuvas de inverno, a família se reúne ao redor do fogão para se aquecer. É quando as crianças ouvem a conversa monossilábica e confusa dos pais, sem poder entendê-los, porque a escuridão impede de observar seus gestos e expressões.
Enquanto Fabiano vê afastado o perigo da seca, Sinhá Vitória teme o perigo da enchente.
No Natal., a família, em trajes de passeio e calçando sapatos, vai à cidade. A sensação de desconforto gerada pelas roupas e calçados apertados aumenta quando, comparados aos tipos da cidade, sentem-se inferiorizados. Os meninos e a cachorra se mostram amedrontados em meio à multidão, enquanto sinhá Vitória participa da missa e Fabiano procura um bar para embebedar-se e assim, superar a humilhação.
Na fazenda, Baleia adoece e Fabiano se vê obrigado a sacrificá-la. Com o episódio de sua morte, fica clara a condição humana a que fora alçada a personagem pelos membros da família, que sentem a perda como a de um ente querido.
Ao acertar as contas com o patrão, Fabiano sente-se lesado, mas aceita passivamente a justificativa de que a diferença era por juros devido a adiantamento recebido. Fabiano se revolta, mas não reage.
As aves em partida anunciam a proximidade de nova seca. Os animais começam a tombar de fome e sede. Com medo do futuro, Fabiano começa a pensar no soldado amarelo e no dono da fazenda, a quem identifica como “governo”. Revoltado com sua impotência, julga-se um “cabra safado”.
Com a chegada da seca, Fabiano pensa em resistir e permanecer na fazenda. A morte em número cada vez maior de animais, porém, faz com que decida fugir para outro lugar. Desconsolados, combinam partir de madrugada, para não encontrar o patrão com quem estavam endividados. Conversam para atenuar o sofrimento, enquanto caminham com a esperança de, um dia, alcançar um lugar onde “os meninos aprendessem coisas difíceis e necessárias”, um lugar “desconhecido e civilizado.”
Ficha de Leitura
* Estrutura da Narrativa: os capítulos são independentes e podem ser lidos em ordem aleatória, uma vez que foram produzidos como contos e publicados em jornais da época. Servem para dar unidade à narrativa apenas o primeiro e o último capítulos, respectivamente, “Mudança” e “Fuga”, que marcam o início e reinício do ciclo da seca.
* Foco Narrativo (onisciência prismática): narrador em terceira pessoa, em cada capítulo evidencia-se um protagonista e tudo é narrado segundo a visão de mundo da personagem em evidência.
* Tempo e Espaço : a realidade miserável do sertão nordestino e o sistema da seca como o agente antagônico da história, que torna a família de retirantes “vidas secas’, impossibilitadas de qualquer forma de ascensão. A história se passa no período entre duas secas e o romance é atemporal: tanto pode ser a década de 30 (época da publicação) como os dias atuais.
* Personagens : Fabiano, Sinhá Vitória, Menino Mais velho, Menino Mais Novo, Cachorra Baleia são os membros da família de retirantes e protagonistas da história. Observe-se o processo de animalização dos seres humanos e de antropomorfização da cachorra.
Patrão, Fiscal da Prefeitura e Soldado Amarelo são os agentes antagônicos, cada um, à sua maneira, explora a família de Fabiano.
* Elementos Estilísticos : -construção inovadora da narrativa, cujos capítulos , com exceção do primeiro e último, podem ser lidos em ordem aleatória;
- cuidado especial no tocante à linguagem – a família de retirantes tem dificuldades de fazer uso da linguagem verbal , comunicando-se através de sons guturais, grunhidos e monossílabos. Sua dificuldade de expressão é um dos grandes fatores que o condicionam à marginalidade, inclusive veem o domínio da língua como perigo e os pais censuram as crianças quando estas se demonstram questionadoras. No entanto o narrador explora seu fluxo de consciência através do discurso indireto livre. -
* Tema principal e secundários : O tema é o drama da seca no Nordeste, não só a seca como agente climático, mas o sistema social do local é responsável por produzir “Vidas Secas”. Temas secundários: coisificação ou exploração do homem como objeto do próprio homem, a falta de domínio da língua culta como fator de exclusão social, a incapacidade de verbalizar a revolta e reivindicar direitos sociais.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Livros - UFPR (2014/2015)
Olá galera vestibulanda do meu Brasil! Hoje vou postar pra vocês a lista de livros que será utilizada no vestibular deste ano na UFPR (por falar nisso cadê as datas de meio de ano hein?)
Enfim, mostrarei aqui a lista, e logo mais,depois de terminar de ler as obras e resumi-las eu posto seus respectivos resumos pra facilitar a vida de vocês... e a minha! Mas vale lembrar, ler o livro tem todo um gosto mágico e um aprendizado muito melhor, então se puderem/quiserem...LEIAM!
Enfim, mostrarei aqui a lista, e logo mais,depois de terminar de ler as obras e resumi-las eu posto seus respectivos resumos pra facilitar a vida de vocês... e a minha! Mas vale lembrar, ler o livro tem todo um gosto mágico e um aprendizado muito melhor, então se puderem/quiserem...LEIAM!
| • A Última Quimera | Ana Miranda |
| • Claro Enigma | Carlos Drummond de Andrade |
| • Eles Não Usam Black-Tie | Gianfrancesco Guarnieri |
| • Fogo Morto | José Lins do Rego |
| • Lavoura Arcaica | Raduan Nassar |
| • Lucíola | José de Alencar |
| • O Bom Crioulo | Adolfo Caminha |
| • Os Dois ou o Inglês Maquinista | Luís Carlos Martins Pena |
| • Poemas Escolhidos | Gregório de Matos (organização de José Miguel Wisnik) |
| • Várias Histórias | Machado de Assis |
críticas, comentários, pedidos.. é só falar!
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sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Sentimento do Mundo
Carlos Drummond de Andrade (1940)
Contexto
Histórico
Sentimento do
Mundo foi publicado no ano de 1940, numa pequena tiragem de 150 exemplares os
quais foram distribuídos a amigos e outros escritores. Na época em fora escrito
por Drummond, o Brasil vivenciava o Estado Novo de Getúlio Vargas e no plano
internacional, houve o acirramento do Nacionalismo exacerbado e revanchismo
decorrente do desfecho da Primeira Guerra Mundial, as relações sociais e
políticas foram marcadas pelo surgimento e expansão das doutrinas do Nazismo e
Fascismo na Europa.
Assim, o Estado
Novo foi uma forma de regime ditatorial disfarçado pelo populismo, sendo
declarado por Vargas em 1937 assim como uma nova Constituição (a Polaca) que
ampliou o poder do presidente, desmobilizou os partidos de oposição e disputa
com o governo. Para fortalecer o regime, Vargas valeu-se da aprovação de
direitos trabalhistas e forte propaganda de manipulação/persuasão e Censura
(pelo Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP), chegando a ser apelidado de
“o pai dos pobres”, mas também ”mãe dos ricos”.
Assim o Movimento
intelectual e artístico foi marcado essencialmente pelo questionamento da
existência humana, do sentimento de “estar-no-mundo”, das inquietações social,
religiosa, filosófica, amorosa e etc. Carlos Drummond de Andrade é o poeta que
melhor representa o espirito dessa geração - conhecida como Geração de 30.
Sentimento
do mundo (livro), de Carlos Drummond de Andrade
Análise
Publicado pela primeira vez em 1940, Sentimento do mundo é o terceiro trabalho poético de Carlos Drummond de Andrade. Os poemas deste livro foram produzidos entre 1935 e 1940. São 28 no total. Traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, tendendo para um olhar crítico e significativamente político. É uma obra que retrata um tempo de guerras, de pessimismo e sobretudo, de dúvidas sobre o poder de destruição do homem.
Escrito na fase em que o mundo se recuperava da Primeira Guerra Mundial e em que já se encontrava iminente a Segunda Grande Guerra, com a imposição do Estado Novo de Getúlio Vargas e o crescimento do Nazi-fascismo, percebe-se em Drummond a luta, a contestação, pela palavra, das atrocidades que o mundo parecia aceitar (“Tudo acontece, menina / E não é importante, menina”). Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo.
Em Sentimento do mundo, Drummond revê o fazer poético. Amadureceu o poeta individualista de Alguma Poesia, tomando consciência do mundo, apesar de não se esquecer de seu coração.
O poeta de Sentimento do mundo constata que vive em “um tempo em que a vida é uma ordem”, que vive num mundo grande, onde os homens de “diferentes cores” vivem suas “diferentes dores” e que não é possível “amontoar tudo isso/num só peito de homem”. Ele constata, arrependido, que se voltou para si e para seus ínfimos problemas:
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre. ("Mundo grande", Sentimento do mundo)
Mais que constatar ele se recusa a ser "o poeta de um mundo caduco", a ser "o cantor de uma mulher, de uma história". O poeta não será uma ilha, mas cantará "o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente" ("Mãos dadas","Sentimento do mundo"). O verso-cachaça dá lugar ao verso-combate, que alimenta o coração do poeta, para lhe dar forças para lutar:
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode.
Ó vida futura! nós te criaremos. ("Mundo grande", "Sentimento do mundo")
Nos poemas de Sentimento do mundo, além do traço preciso e corrosivo, próprio da escrita de Drummond, há uma imensa preocupação com os rumos que tomam as pessoas enquanto seres humanos.
Nesta obra fica claro que o individualismo está mais próximo da concordância com o modelo da situação que do protesto e que, somente unidos (“Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”), através dos mesmos sentimentos, ainda que mal se compreendam (“Ele sabe que não é nem nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza...”), os homens conseguiriam modificar o mundo:
...as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer ("A noite dissolve os homens")
Não há, entretanto, otimismo na visão do poeta. É sombria e pessimista a visão de mundo que se justapõe à esperança da revolução e da utopia. Assim, dor e esperança são os temas básicos que regem os poemas de Sentimento do Mundo. Uma dor, talvez, maior que a esperança que a contempla, ou talvez esta não esteja tão próxima dos homens. A dor é o "Sentimento do Mundo"; dor de todos os homens e que se concentra em um só – o poeta:
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor. ("Sentimento do mundo)
E, então, ele, o poeta, sente-se responsável pelas pessoas a sua volta; sofre por elas; sente-se elas. Como se vê em:
É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
(...)
("Poema da necessidade")
O "nós" é muito empregado em Sentimento do Mundo e é através do "nós" que surgirá a esperança. Ressalte-se que ela, a Esperança, nunca está no presente, mas, sempre, no futuro, virá. Vem, assim como a dor, personificada em imagens possíveis de se encontrar em nosso cotidiano: o sorriso do operário, que caminha firme ("Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido"); a aurora, que dissolve a noite que traz o sofrimento ("Aurora, / entretanto eu te diviso, ainda tímida, / inexperiente das luzes que vais acender"); o soluço de vida, que resiste ao verme roedor de lembranças:
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
Que rebentava daquelas páginas. ("Os mortos de sobrecasaca")
Assim, os temas políticos, o sofrimento do ser humano e as guerras, a solidão, o mundo frágil, os seres solitários predominam. A dor humana está lá; o eu-lírico se resguarda e canta o outro, tão mais importante que ele próprio.
Publicado pela primeira vez em 1940, Sentimento do mundo é o terceiro trabalho poético de Carlos Drummond de Andrade. Os poemas deste livro foram produzidos entre 1935 e 1940. São 28 no total. Traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, tendendo para um olhar crítico e significativamente político. É uma obra que retrata um tempo de guerras, de pessimismo e sobretudo, de dúvidas sobre o poder de destruição do homem.
Escrito na fase em que o mundo se recuperava da Primeira Guerra Mundial e em que já se encontrava iminente a Segunda Grande Guerra, com a imposição do Estado Novo de Getúlio Vargas e o crescimento do Nazi-fascismo, percebe-se em Drummond a luta, a contestação, pela palavra, das atrocidades que o mundo parecia aceitar (“Tudo acontece, menina / E não é importante, menina”). Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo.
Em Sentimento do mundo, Drummond revê o fazer poético. Amadureceu o poeta individualista de Alguma Poesia, tomando consciência do mundo, apesar de não se esquecer de seu coração.
O poeta de Sentimento do mundo constata que vive em “um tempo em que a vida é uma ordem”, que vive num mundo grande, onde os homens de “diferentes cores” vivem suas “diferentes dores” e que não é possível “amontoar tudo isso/num só peito de homem”. Ele constata, arrependido, que se voltou para si e para seus ínfimos problemas:
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre. ("Mundo grande", Sentimento do mundo)
Mais que constatar ele se recusa a ser "o poeta de um mundo caduco", a ser "o cantor de uma mulher, de uma história". O poeta não será uma ilha, mas cantará "o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente" ("Mãos dadas","Sentimento do mundo"). O verso-cachaça dá lugar ao verso-combate, que alimenta o coração do poeta, para lhe dar forças para lutar:
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode.
Ó vida futura! nós te criaremos. ("Mundo grande", "Sentimento do mundo")
Nos poemas de Sentimento do mundo, além do traço preciso e corrosivo, próprio da escrita de Drummond, há uma imensa preocupação com os rumos que tomam as pessoas enquanto seres humanos.
Nesta obra fica claro que o individualismo está mais próximo da concordância com o modelo da situação que do protesto e que, somente unidos (“Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”), através dos mesmos sentimentos, ainda que mal se compreendam (“Ele sabe que não é nem nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza...”), os homens conseguiriam modificar o mundo:
...as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer ("A noite dissolve os homens")
Não há, entretanto, otimismo na visão do poeta. É sombria e pessimista a visão de mundo que se justapõe à esperança da revolução e da utopia. Assim, dor e esperança são os temas básicos que regem os poemas de Sentimento do Mundo. Uma dor, talvez, maior que a esperança que a contempla, ou talvez esta não esteja tão próxima dos homens. A dor é o "Sentimento do Mundo"; dor de todos os homens e que se concentra em um só – o poeta:
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor. ("Sentimento do mundo)
E, então, ele, o poeta, sente-se responsável pelas pessoas a sua volta; sofre por elas; sente-se elas. Como se vê em:
É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
(...)
("Poema da necessidade")
O "nós" é muito empregado em Sentimento do Mundo e é através do "nós" que surgirá a esperança. Ressalte-se que ela, a Esperança, nunca está no presente, mas, sempre, no futuro, virá. Vem, assim como a dor, personificada em imagens possíveis de se encontrar em nosso cotidiano: o sorriso do operário, que caminha firme ("Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido"); a aurora, que dissolve a noite que traz o sofrimento ("Aurora, / entretanto eu te diviso, ainda tímida, / inexperiente das luzes que vais acender"); o soluço de vida, que resiste ao verme roedor de lembranças:
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
Que rebentava daquelas páginas. ("Os mortos de sobrecasaca")
Assim, os temas políticos, o sofrimento do ser humano e as guerras, a solidão, o mundo frágil, os seres solitários predominam. A dor humana está lá; o eu-lírico se resguarda e canta o outro, tão mais importante que ele próprio.
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quinta-feira, 14 de novembro de 2013
O Cortiço
Aluísio Azevedo , 1890
O romance
focaliza a ascensão de um português, João Romão, dono de um cortiço e uma
pedreira cujos empregados, além de morar nos casebres por ele alugados,
endividam-se ao comprar fiado em sua
venda. Através dessa exploração, João Romão vai-se enriquecendo, auxiliado por
sua amante e empregada, Bertoleza, para quem ele havia providenciado uma falsa
carta de alforria.
O maior
desejo do vendeiro é conseguir boa posição social, além da fortuna, como seu
patrício Miranda, que mora no sobrado
encostado ao cortiço e é vítima da
inveja de Romão, por seus costumes refinados. Movido pela ambição, o
protagonista não hesita em usar os meios para acumular fortuna, roubando nos
pesos e nos trocos. Assim acumularia riqueza para ficar noivo da filha do
Miranda.
Enquanto
ocorre o processo de ascensão de João Romão, são focalizados outros
personagens, centros de pequenos enredos, mas que, no todo, funcionam como
instrumentos para a máquina de renda do proprietário do cortiço. São lavadeiras,
prostitutas, operários da pedreira, todos representantes de uma população
marginal que vive em um ambiente degradado e corruptor.
O cortiço é
o meio que parece adquirir vida própria, um personagem maior, que condiciona o
comportamento dos que ali moram, como é o caso de Pombinha, menina inocente
criada em colégio interno, não resistindo Às pressões do meio, é levada à
prostituição, por Leónie, sua madrinha, com quem também desenvolve um
relacionamento homossexual. O mesmo se dá com Jerônimo, o colono português,
mestre de obras da pedreira que, vindo morar no cortiço com a esposa Piedade é
arrebatado por uma paixão violenta por Rita Baiana, abandonando a família e a
vida regrada que vivia, tornando-se marginal e homicida.
Depois de
um incêndio no cortiço, motivado por uma vingança do cortiço Cabeça de Gato (
vingança à morte do Firmo, ex – amante de Rita ), João Romão transforma-o na
“Avenida São Romão”, com uma aparência cuidada
e ordeira, enquanto a população mais baixa e miserável se reúne em outro
local, reproduzindo a situação inicial do “Cortiço São Romão”, como se houvesse
um ideal de preservar a típica estalagem fluminense, onde há um rolo e um samba
por noite, onde se matam homens sem a polícia descobrir , viveiro de larvas ou
animais no brejo de lodo quente e fumegante, fazendo brotar vidas miseráveis em
meio à podridão.
Ao chegar À
plena ascensão, ampliando a venda, reformando a casa, que ostentava mais do que
o sobrado, refinando seus hábitos e maneira de vestir-se, João Romão prepara-se
para tomar como esposa a filha do Miranda. Era preciso , então, livrar-se de
Bertoleza, traste que lhe servira em outra época e agora adiava sua felicidade.
Assim, denuncia sua fuga aos antigos
donos, que vão buscá-la com a polícia. A escrava, percebendo a traição,
suicida-se.
Em seguida,
pára uma carruagem na porta do vendeiro, trazendo-lhe o título de sócio
benemérito de uma entidade abolicionista
Ficha de Leitura :
Personagens
: Todos são tipos, apresentados
como problema social urbano na realidade inferior do Rio de Janeiro. Do cortiço
saem personagens que estão sempre vinculados ao grupo e cuja ação resulta do
meio a que fazem parte. A narrativa se constrói em lutas, porém entre membros
de uma mesma classe: a burguesia dos dois sobrados e a popular dos cortiços.
Ganância x ganância, exploração x exploração ( Miranda e João Romão), cada qual
procurando explorar o máximo seus semelhantes. Enquanto no espaço do cortiço
destaca-se a luta entre o capoeira brasileiro e a força bruta do português (
Firmo e Jerônimo), a mulata sensual contra o provincianismo da portuguesa (
Rita Baiana e Piedade), as donzelas contra a prostituição favorecida elo meio (
Pombinha e Léonie)
Narrador: em terceira
pessoa, onisciente, seu propósito crítico é mostrar as mazelas morais e sociais
dos habitantes de um cortiço, no Rio de Janeiro, segunda metade do século XIX,
fundamentando-se na corrente determinista de Hypolite Taine, segundo a qual o homem é produto do meio, da raça e
do momento histórico.
Tempo e
Espaço: embora a obra tenha sido publicada em 1890, retoma os anos imediatamente
anteriores à abolição da escravatura e à Proclamação da República no Brasil ,
mostrando um Rio de Janeiro que se urbanizava desordenadamente.
Gênero da
Obra: Naturalismo – o meio social é mais importante do que o homem e
condiciona o seu caráter. Mostra uma sociedade, doente, patológica e sem
conserto. Todos os que se submetem a morar no cortiço são corrompidos pelo meio
corruptor.
O percurso de ascensão de
João Romão fundamenta-se na Lei de Seleção Natural de Darwin , ou lei da
sobrevivência do mais forte. É Assim que João Romão se apodera do Cortiço, de
Bertoleza e da pedreira como veículos que lhe garantem a plena ascensão social.
Daí vem a mudança de hábito, o noivado com Zulmira e a denúncia de Bertoleza
aos seus donos, livrando-se do traste para que pudesse se casar com a jovem
burguesa, filha do Miranda.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Literatura! Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
Resumo:
No capítulo X do romance, Brás Cubas narra o episódio
de seu nascimento, as emoções comuns a todas as famílias que recebem o primeiro
filho: o orgulho dos pais com as primeiras palavras, os primeiros passos ... No capítulo XII,
vamos encontrá-lo menino de cinco anos, matreiro e inquieto, típico menino
diabo; maltrata os escravos,mente, esconde os chapéus das visitas, coloca rabos
de papel em pessoas graves, enfim, possui um comportamento maligno, contando
com a cumplicidade do pai e as orações inúteis da mãe. O tio cônego assume o
papel de crítico à educação baseada na superproteção paterna e na omissão
materna. A atuação do tio cônego contrapõe-se à vida
galante e às obscenidades do tio João, um dos frequentadores da casa, que mima
o garoto, ensinando-lhe muitas anedotas e malícias, assim conseguindo sua
estima. Como era de se esperar, o contexto familiar, que
lhe favorece e justifica as traquinagens prenuncia o adulto egocêntrico e
egoísta em que se transforma, como ele reconhece irônica e criticamente, em
relação à própria educação. Na juventude, envolve-se com Marcela, uma cortesã
espanhola por quem se apaixona e que o ama durante quinze meses e alguns contos de réis. Quando
o pai toma conhecimento das aventuras do filho, manda-o à Europa para os
estudos, aos quais pouco se dedica. Por ocasião da morte da mãe, volta ao Brasil e,
ainda abalado, passa a viver em retiro, na Tijuca, enamora-se da filha de D.
Eusébia, Eugênia, que era bonita e coxa. Por preconceito, foge da moça e volta
à cidade. Ao retornar à vida na corte, Brás Cubas almeja
casar-se com Virgília, num negócio arranjado pelo pai: era a filha de um
conselheiro que lhe arranjaria o cargo de deputado. Ambos os projetos falharam:
Brás Cubas perde a noiva e o cargo para Lobo Neves. Seu pai
morre pouco depois e este, herdando sua fortuna, não precisa de sacrifícios
para viver. Por causa dos bens, rompe com a irmã Sabina e passa a levar uma
vida solitária. Mais tarde, consegue o amor adúltero de Virgília
e retoma os laços de família. Nessa época, encontra um amigo de infância,
Quincas Borba, mendigo que se diz filósofo; este lhe rouba o relógio e desaparece. Retorna tempos
depois, enriquecido por uma herança,
devolve o relógio e tenta expor-lhe a teoria do Humanitismo, fazendo de Brás
Cubas seu discípulo. Lobo Neves, que parece desconfiar do adultério,é
nomeado presidente de província e são obrigados a deixar o Rio de Janeiro. Os
amantes separam-se.
A irmã de Cubas arranja-lhe uma noiva, Eulália,
sobrinha de seu marido, Cotrim. Brás Cubas vê-se dividido entre o cortejo da moça
e a amizade de Quincas Borba, que
lhe expõe sua complicada filosofia baseada na felicidade absoluta do homem.
Quando está decidido a unir-se em casamento, Eulália é vitimada por uma
epidemia de febre amarela e morre. Dois anos depois, Brás Cubas torna-se deputado e
continua solteiro. Aos 50 anos revê Virgília e sente-se velho, percebe que sua
vida se esgotava. O amigo filósofo o consola e anima..
Tenta fundar um jornal em conjunto com Quincas
Borba, mas fracassa nos primeiros exemplares.
Morre Lobo Neves e reencontra Virgília sofrendo a
perda do marido.
Tempos depois, Quincas Borba parte para Minas
Gerais onde queima os manuscritos da teoria filosófica, retorna louco e morre
tempos depois.
Assim, de fracasso em fracasso, conduz-se a
travessia de Brás Cubas, personagem símbolo da ironia machadiana quanto ao
ideal burguês de vencer na vida, especialmente representado através do
Humanitismo.
Inventar um emplasto contra a
hipocondria, um remédio miraculoso que curaria todos os males da humanidade, constitui
a última tentativa de Brás Cubas - o seu último projeto - sem sucesso como
todos os outros - ironicamente impedido pela morte do protagonista: ao preocupar-se com o projeto, descuida-se da
saúde contraindo pneumonia ao sair de casa a fim de patentear o invento. E
assim torna-se defunto autor, confessando que até o saldo que leva para a outra vida é negativo - não teve filhos e
assim não transmitiu o legado das misérias humanas.
O romance é
narrado em primeira pessoa, pelo personagem protagonista Brás Cubas, que se
intitula “defunto autor” e coloca,assim, em cheque os propósitos básicos das
obras Realistas - a questão da verossimilança e a imparcialidade dos
narradores, pois não é real um fantasma escrever uma obra, sobretudo um
fantasma que está envolvido com a matéria que vai narrar, sendo dela o
personagem principal.
Brás Cubas quer
fazer o leitor acreditar que é onisciente, afirmando que na condição de morto
já não tem nada a temer da punição humana; no entanto deixa pistas de sua falsa
onisciência. No início, por exemplo, compara sua obra ao “Pentateuco”, escrito
por Moisés, para em seguida afirmar que só tinham onze pessoas em seu velório.
Ou seja, temos aí um narrador narcizista que escreve para se colocar numa
posição de superioridade em relação ao leitor. Já no prólogo confessa não dar
importância que talvez seja lido por
cinco leitores e que, se não gostarem do livro, dá-lhes um piparote. Na verdade, o objetivo do autor é
quebrar com os laços de cumplicidade comum nos textos românticos, exigindo
postura crítica do leitor.
Brás Cubas conta
sua história através de uma postura irônica, escondendo sua trajetória
inglória, atribuindo a culpa de seus fracassos aos demais personagens. Texto
Realista, na medida que o desvendamento de sua ironias permite-nos reconhecê-lo
imperfeito e contraditório, como qualquer ser humano.
Enquanto
personagem, Brás Cubas foi traído pela prostituta Marcela, que o amou por
alguns meses e outros contos de réis, não se casou com Virgília, não foi
deputado quando desejava, não chegou a ministro de estado, foi roubado pelo
amigo Quincas Borba, a noiva Eulália morreu, seu jornal faliu,não teve a
celebridade do emplastro, cujo projeto o levou à morte ... e até mesmo o saldo
de sua vida é negativo: Não teve filhos e assim não transmitiu para a espécie
humana o legado da nossa miséria. Temos o percurso do protagonista como uma
enfiada de decepções e vemos, assim, aplicada na obra literária de Machado de
Assis a concepção pessimista da filosofia Determinista de Schopenhauer, de que
o homem está fadado ao sofrimento por pressões morais, sociais, leis físicas e
até causas hereditárias.
O protagonista e
narrrador do romance -egoísta e egocêntrico, irônico e com ar superior,
constitui uma inversão dos heróis do mundo burguês, que aparecem na literatura
realista, cujo objetivo é sempre sair-se
bem, caracterizados pela ascensão social relativizada por algum fracasso no
plano afetivo. Brás Cubas não tem sucesso em nenhum setor, tornando-se
antimodelo, através do qual Machado ironiza impiedosamente os valores burgueses
e humanos de modo geral.
Quanto à Linguagem,
há aspectos relevantes na obra que inovam totalmente os textos da literatura
brasileira, tais como o diálogo crítico com o leitor; a narração fragmentária,
cortada por capítulos que explicam outros, interrupções para discutir a
escrita, histórias que aparentemente não mantêm relação com o enredo, enfim,
elementos para exigir o esforço organizador do leitor, além da ironia à
estrutura social vigente (sociedade escravocrata em descompasso com o
liberalismo europeu) e o pessimismo,que reproduz uma das correntes filosóficas
da época, incorporando em arte o cientificismo dominante
- FICHA DE LEITURA .
Gênero
Literário:
Romance Digressivo – não se prende a construir uma narrativa onde
predomine a evolução das ações do enredo, mas
faz reflexões sobre assuntos que fogem ao eixo central da narrativa e
uso de histórias paralelas ( Exs. “ A propósito de Botas” – cap. XXXVI :
histórias de Vilaça , Marcela, D. Plácida, Prudêncio....)
Inspirado na obra Diálogo dos Mortos ( Lucinao de
Samósata – Grécia – séc. II) , onde o filósofo Menipo de Gadara, depois de
morto, é o protagonista que ridiculariza o mundo dos vivos . Daí Memórias Póstumas ser
denominado “sátira menipéia” .
Influências do referido romance grego: ausência de enobrecimento dos
personagens; abordagem humorística de questões cruciais: a realidade, o
destino, a existência; liberdade em
relação aos ditames da verossimilhança (mortos não escrevem ) ; estados de espírito
aberrantes: desdobramento de personalidade, delírios, paixões descontroladas.
Narrador: Em primeira pessoa, é o protagonista Brás Cubas, que
conta a sua vida após a morte: “ não sou propriamente um autor defunto, mas um
defunto autor”, ou seja, alguém que cria uma espécie de Realismo Fantástico: os
mortos não têm nada a temer, podem contar toda a verdade. Mas fantasmas não
escrevem!!!
Brás Cubas quer fazer o leitor acreditar que é onisciente. No entanto,
deixa pistas de sua falsa onisciência. No início, por exemplo, compara sua obra
ao Pentateuco, escrito por Moisés, para em seguida afirmar que só
havia onze pessoas em seu velório. Narrador narcizista que escreve para se
colocar numa posição de superioridade que não possui, passando a exigir postura
crítica do leitor.
Personagens:
O
PROTAGONISTA, Brás Cubas, constitui uma inversão dos heróis do mundo burguês,
que aparecem na literatura Realista, cujo objetivo é sempre sair-se bem,
caracterizados pela ascensão social relativizada por algum fracasso no plano
afetivo. Brás Cubas não tem sucesso em nenhum setor, tornando-se antimodelo,
através do qual Machado ironiza impiedosamente os valores burgueses e
humanos de modo geral.
Brás
Cubas foi traído pela prostituta
Marcela, não se casou com Virgília, não foi deputado quando desejava, não
chegou a Ministro de Estado, foi roubado pelo amigo Quincas Borba, seu jornal
faliu, não teve a celebridade do emplasto ... e até mesmo o saldo de sua vida é
negativo. Não teve filhos e assim não transmitiu para a espécie humana o legado
da nossa miséria. Aplica-se em sua vida a filosofia determinista de
Schopenhauer, de que o homem está fadado ao sofrimento por pressões morais,
sociais, leis físicas e até causas hereditárias.
OS
PERSONAGENS SECUNDÁRIOS são descritos pela ótica destruidora e narcisista do
narrador, todos corrompíveis e/ou marcados por alguma forma de fracasso. (
rever: Marcela, Lobo Neves, Cotrim, Quincas Borba, Virgília)
Tempo e
Espaço:
A sociedade das Memórias é
das classes altas da vida carioca do século XIX. Ao todo, a época representada
nesse romance vai do primeiro ao último reinado. Do lado oposto ao das
elites, mas como propriedade destas, estende-se a escravidão, urbana e
domiciliar. As elites abrangem os ricos, as pessoas de posse e de poder. Mas,
gravitando em torno delas há também gente das classes médias, constituídas de
funcionários, pessoas remediadas ou mesmo alguns pobres à cata de ascensão.
A sustentação do país era agrária, com ênfase na exportação de
matéria-prima, e na importação de manufaturados. Como exportadores, mostrávamos
a nossa primariedade. Como importadores, era a vaidade que predominava.
Importávamos cultura, objetos de ouro e prata, vestimenta, companhias
operísticas etc. Nossas elites eram precárias. Mas, assimilando o charme
europeu, desejavam mostrar-se como liberais, como avançados, coisa que na
prática não eram. A família de Brás Cubas chega a fazer um jantar para
comemorar a expulsão de Napoleão da França (capítulo XII). Mas era uma grande
incoerência comemorar o liberalismo europeu no seio de uma sociedade
escravocrata, como era a mesma família. Nossas elites desejavam compara-se às
européias. Mas como, se tínhamos escravos? Se éramos um mero país exportador de
matéria-prima e dependente?
Estilo do Autor:
Há aspectos relevantes na
obra que inovam totalmente os textos da Literatura Brasiliera: o diálogo
crítico com o leitor; a narração fragmentária, cortada por capítulos que
explicam outros, interrupções para discutir a escrita, histórias que
aparentemente não têm relação com o enredo, enfim, elementos para exigir o
esforço organizador do leitor, além da
ironia à estrutura social vigente (sociedade escravocrata em descompasso com o liberalismo europeu) e o
pessimismo , que reproduz a corrente filosófica Determinista Pessimista de
Schopenhauer, incorporando em arte o cientificismo dominante, sem contar a
ironia às diversas correntes
científicas, através da Filosofia “Humanitismo” lançada por Quincas Borba neste
romance e desenvolvida no romance seguinte, paródia do evolucionismo e
Positivismo, que a nada leva, a não ser o seu autor à demência e à morte.
Estilo de Época
Do Realismo o romance
apresenta o propósito de engajamento literário ( a narrativa reproduz o próprio
contexto social da época em que foi escrito), os personagens são seres humanos caracterizados por muitos vícios e poucas
virtudes, a questão da infidelidade e da sociedade de aparências; a sondagem, a
especulação do íntimo do homem, vítima de suas paixões e de sua vaidade.
Principais temas:
“ O menino é pai do homem”
( a criança traz em si o prenúncio do adulto com todos os seus vícios e
defeitos);
a morte é o fim das ilusões;
pessimismo na definição da vida: a vida é um palco;
o tempo passa inexoravelmente.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Literatura! Viagens na minha terra - Almeida Garret
Resumo: Viagens na Minha Terra, Almeida
Garret. (1846)
“Viagens na Minha Terra”, pode ser considerado um romance contemporâneo. Um livro difícil de enquadrar em género literário, pelo hibridismo que apresenta, além da viagem que de fato acontece ( narrada do primeiro ao décimo capítulo), paralelamente o autor conta um romance sentimental.
O conteúdo da obra, parte de um fato real, uma viagem que Garrett fez a Santarém e que teve o cuidado de situar no tempo. Além da viagem real, Garrett, faz nas suas divagações, várias viagens paralelas. Tantas e tais viagens, que numa delas o leva justamente, e pela mão de um companheiro de itinerário, a centrar-se no drama sentimental de Carlos e “ a menina dos rouxinóis”- Joaninha.
O Romance resume-se na intricada história, de uma velhinha com sua neta Joaninha. A menina –moça, tem um primo, filho da única filha da avó, que já falecera. A moça tinha por si só a avó. Todas as semanas, Frei Dinis, vinha visitá-las, e algumas vezes trazia notícias de Carlos, que já algum tempo, fazia parte do séquito de D. Pedro.
Só que a maneira como Frei Dinis falava de Carlos, dava para perceber algo, que só a idosa e Frei Dinis conheciam. Passara o ano de 1830, Carlos formara-se em Coimbra, e só então visitou a família, mas com muitas reticências em relação a avó e Frei Dinis. Carlos também pressentia que ele e a avó mantinham um segredo.
Carlos, nas suas andanças pela Inglaterra, já tinha eleito uma fidalga para ele: D. Georgina, mulher de fino trato.
No entanto, a guerra civil progredia; eram meados de 1833. Os Constitucionalistas tinham tomado a Esquadra de D. Miguel, Lisboa estava em poder deles, e Carlos era um dos guerreiros da parte Realista.
Em 11 de Outubro, os soldados estão todos por volta de Lisboa, as tropas constitucionais vinham ao encalço das Realistas e, na batalha sangrenta, muitos ficaram feridos.
A região em torno da casa de Joaninha foi tomada por soldados Realistas, que vigiavam a passagem dos Constitucionais.
Numa das andanças de Joaninha, por perto de casa, encontra Carlos. Ele pede que não diga que ali está, mas abraçam-se e trocam juras de amor ali mesmo. Só que Carlos sabia que Georgina o esperava, e a sua mente tornou-se confusa, já não sabia se amava Georgina.
Certo dia, Carlos, depois de muita insistência de Joaninha, foi ver a avó, e ficou surpreso da cegueira da mesma. Por lá encontrou Frei Dinis, e quanto mais o olhava , menos gosto tinha.
Enquanto permaneceu por perto, Carlos e Joaninha mantiveram um romance inocente, até que ele é ferido em combate e levado a um hospital.
Carlos, já refeito dos ferimentos, em um hospital, revolta-se com a presença de Frei Dinis, ao que Georgina, que veio lhe visitar, conta que ele estava a salvo por interferência do frei. Carlos tem ímpetos de ferir o religioso, com ódio gratuito. Então, Dona Francisca entra no quarto e conta que o Frei Dinis é pai de Carlos; e para se defender, de uma emboscada, Dinis mata o pai de Joaninha, e o marido da sua amante. Diz que sua mãe morrera de desgosto. E Dinis entrara para a vida religiosa como autopunição.
“Viagens na Minha Terra”, pode ser considerado um romance contemporâneo. Um livro difícil de enquadrar em género literário, pelo hibridismo que apresenta, além da viagem que de fato acontece ( narrada do primeiro ao décimo capítulo), paralelamente o autor conta um romance sentimental.
O conteúdo da obra, parte de um fato real, uma viagem que Garrett fez a Santarém e que teve o cuidado de situar no tempo. Além da viagem real, Garrett, faz nas suas divagações, várias viagens paralelas. Tantas e tais viagens, que numa delas o leva justamente, e pela mão de um companheiro de itinerário, a centrar-se no drama sentimental de Carlos e “ a menina dos rouxinóis”- Joaninha.
O Romance resume-se na intricada história, de uma velhinha com sua neta Joaninha. A menina –moça, tem um primo, filho da única filha da avó, que já falecera. A moça tinha por si só a avó. Todas as semanas, Frei Dinis, vinha visitá-las, e algumas vezes trazia notícias de Carlos, que já algum tempo, fazia parte do séquito de D. Pedro.
Só que a maneira como Frei Dinis falava de Carlos, dava para perceber algo, que só a idosa e Frei Dinis conheciam. Passara o ano de 1830, Carlos formara-se em Coimbra, e só então visitou a família, mas com muitas reticências em relação a avó e Frei Dinis. Carlos também pressentia que ele e a avó mantinham um segredo.
Carlos, nas suas andanças pela Inglaterra, já tinha eleito uma fidalga para ele: D. Georgina, mulher de fino trato.
No entanto, a guerra civil progredia; eram meados de 1833. Os Constitucionalistas tinham tomado a Esquadra de D. Miguel, Lisboa estava em poder deles, e Carlos era um dos guerreiros da parte Realista.
Em 11 de Outubro, os soldados estão todos por volta de Lisboa, as tropas constitucionais vinham ao encalço das Realistas e, na batalha sangrenta, muitos ficaram feridos.
A região em torno da casa de Joaninha foi tomada por soldados Realistas, que vigiavam a passagem dos Constitucionais.
Numa das andanças de Joaninha, por perto de casa, encontra Carlos. Ele pede que não diga que ali está, mas abraçam-se e trocam juras de amor ali mesmo. Só que Carlos sabia que Georgina o esperava, e a sua mente tornou-se confusa, já não sabia se amava Georgina.
Certo dia, Carlos, depois de muita insistência de Joaninha, foi ver a avó, e ficou surpreso da cegueira da mesma. Por lá encontrou Frei Dinis, e quanto mais o olhava , menos gosto tinha.
Enquanto permaneceu por perto, Carlos e Joaninha mantiveram um romance inocente, até que ele é ferido em combate e levado a um hospital.
Carlos, já refeito dos ferimentos, em um hospital, revolta-se com a presença de Frei Dinis, ao que Georgina, que veio lhe visitar, conta que ele estava a salvo por interferência do frei. Carlos tem ímpetos de ferir o religioso, com ódio gratuito. Então, Dona Francisca entra no quarto e conta que o Frei Dinis é pai de Carlos; e para se defender, de uma emboscada, Dinis mata o pai de Joaninha, e o marido da sua amante. Diz que sua mãe morrera de desgosto. E Dinis entrara para a vida religiosa como autopunição.
Com isso Carlos parte, deixando Joaninha
desolada. Volta a viver com Georgina. Escreve à prima contando todo o seu
romance com Georgina, e com outra duas namoradas:Júlia e Laura; o que para a
moça foi um impacto terrível. Mais Tarde Carlos se fez Barão. Também abandona
Georgina , que vira Abadessa.Joaninha, enlouqueceu e morreu. Frei Dinis foi
quem cuidou da velha senhora até a morte.
Resumo da Crônica de Santa Iria (Santa
Irene – Santarém)
Segundo o
romance popular: freira de um convento beneditino. Apaixonou-se por ela
Britaldo, filho do conde Castinaldo. Ele caiu enfermo e ela o consolou como
mulher e ralhou como santa. Ele sarou.
Remígio,
diretor do convento apaixona-se por Irene e tenta seduzi-la. Ela resiste e o frade lhe dá uma bebida diabólica, que
faz seu ventre crescer, como se estivesse grávida. Ela vai ao rio Nabão rezar e
um empregado de Britaldo a mata , jogando o corpo no rio.
Misteriosamente,
um sepulcro de alabastro e envolveu e as águas cobriram tudo.
Seis séculos
depois, a fervorosa rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, rezou no local
para ver a santa. As águas descobriram o túmulo, mas ninguém conseguiu abri-lo.
O rei mandou
construir um padrão, no meio do rio, local onde aparecera a sepultura, em homenagem à santa. As águas cobriram tudo
e o padrão ficou sobressaindo por cima delas.
Passaram-se
mais três séculos e meio e em 1644,
a câmara de Santarém mandou fazer um pedestal e pôs em
cima a imagem da santa.
Assim o viu o
narrador e, Julho de 1843. O rio tinha-se retirado para um cantinho do leito e
o padrão estava seco, como fica todo ano, até começarem as cheias. (cap. 30)
Resumo da Cantiga de Santa Iria
“A santa está
em casa de seus pais: um cavaleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite,
levanta-se por horas mortas, rouba a inocente donzela, foge a todo o correr de
seu cavalo e, chegando a um descampado dali muito longe, pretende fazer-lhe
violência... A santa resiste, ele mata-a. Daí a anos passa por aí o indigno
cavaleiro,vê uma linda ermida levantada no próprio sítio onde cometeu o crime,
pergunta de que santa é, dizem-lhe que é de Santa Iria. Ele cai de joelhos a
pedir perdão à santa, que lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.” (p.
106)
Ficha de Leitura – Viagens na Minha Terra
Gênero, Estrutura do Enredo
·
Romance Digressivo - 49 capítulos
·
Capítulos 01 ao 9 : Digressões de
Viagens – os marinheiros e os ilhéus; os frades e os barões; a geografia antiga
e nova – os pinhais de Santarém; arquitetura antiga e moderna (após terremoto e
reconstrução Marquês de Pombal); a política monarquista e liberal.
- Capítulos 10 ao 46: a História de
amor: Joaninha / Carlos/ Georgina e mais
digressões ( As Histórias de Santa Iria e a História de Portugal no contexto da
revolução civil entre D. Pedro e D. Miguel)
Personagens :
Joaninha: menina de 16 anos, responsável pelos cuidados com a avó cega, D.
Francisca, apaixonada pelo primo Carlos, revela seu amor quando ele volta da
Inglaterra, não suporta o fato de ser abandonada pelo primo e acaba
enlouquecendo e morrendo.
Georgina: moça inglesa de fino trato, apaixonada por Carlos, vem a sua procura em Portugal ; generosa, possui o
perfil da heroína romântica, abre mão do amor de Carlos ao saber que ele tem
sua prima Joaninha como amor de infância, vai para o convento
Carlos: jovem, um pouco mais velho que Joaninha, de caráter temperamental,
revolta-se contra a avó, que julga esconder o passado da família com a
cumplicidade de frei Diniz, é criado pela avó e, quando se torna adulto,
resolve deixar Santarém e viaja para a Inglaterra, onde conhece Georgina. Ao
saber da Guerra Civil em Portugal, alista-se nas tropas dos liberais de D.
Pedro . Considera-se um aleijão moral, por não conseguir se apaixonar apenas
por uma mulher. Dividido entre o amor de Joaninha e Georgina, não fica com
nenhuma das duas e vai embora para Lisboa, onde virá a ser deputado.
Secundários:
D. Francisca e Frei Diniz : a avó de Carlos e Joaninha, é cúmplice de Frei Diniz, que matou
o marido da amante, mãe de Carlos e o pai de Joaninha, em uma emboscada. Sofre
pelo abandono do neto, com idade avançada e os problemas emocionais, acaba se
tornando cega. É quem revela a história da família ao neto; mas, mesmo assim não obtém o
seu perdão, por ter-se submetido à ajuda
de um criminoso. Símbolo das mulheres desamparadas que não têm saída para
sustentar a família, por isso se submete à ajuda daquele que matara seu genro e
seu filho.
Narrador: em terceira pessoa, observador,
na história de amor, uma vez que conta a história que ouviu de um
companheiro de viagem;
Narrador em primeira pessoa, durante os dez primeiros capítulos. Tem como
objetivo, em suas digressões de viagem (Lisboa a Santarém) fazer um estudo crítico de Portugal, modificado
pela cultura materialista dos novos barões e também alterado com mau gosto em seus monumentos e
construções reformados , seja após o terremoto do século XVIII, pela mão do
Marquês de Pombal, ou pelo período de regeneração pós Revolução Civil .
Tempo e Espaço: a história de amor se passa em Santarém, interior de Portugal,
durante o período da Guerra Civil ( D. Pedro contra D. Miguel - entre 1831 e
1833) e a narrativa da viagem se dá em 1843, durante a viagem do autor, de
Lisboa a Santarém.
Características românticas: engajamento histórico (fatos da História de Portugal durante o século XIX), exagero sentimental ;
final trágico, com o enlouquecimento e a
morte de Joaninha e a ida de Georgina
para o convento.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Literatura! Memórias de Um Sargento de Milícias
Memórias
de Um Sargento de Milícias – Manuel A . de Almeida.
I- Enredo
Leonardo,
herói das memórias, nasceu de um romance sui generis. Leonardo Pataca, seu pai,
e Maria da Hortaliça, quitandeira das Praças
de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. Conheceram-se num navio e após
algumas pisadelas e beliscões foram morar juntos. Transcorridos sete meses,
teve Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprimento,
gordo, vermelho, cabeludo, esperneador e chorão. Era Leonardo.
Traquinas, Leonardo foi
abandonado pelo pai, aos sete anos, após a fuga de Maria da Hortaliça, para
Portugal, com o capitão de um navio – seu novo amante. Com um pontapé, o pai –
que na época desempenhava a função de meirinho (oficial de justiça), manda-o
fora de casa. Leonardo, então, é recolhido pelo padrinho, o barbeiro vizinho.
Mas suas estrepolias não cessaram, fato que causou sérias desavenças entre a
madrinha de Leonardo, a vizinha e parteira, e o padrinho, já que este último
fazia vistas grossas às travessuras do afilhado.
O barbeiro ensinou-lhe, com
muito custo, as primeiras letras, pois tencionava fazê-lo clérigo. Na escola,
suas artimanhas se intensificaram. Passados dois anos, Leonardo abandonou a
escola e ingressou, como coroinha, na Igreja, pois via ali lugar
adequado para melhor prepará-lo. Mas teve lá estadia breve: o padre enxotou-o,
tantas foram as desordens que provocou.
Neste ritmo, Leonardo
cresceu, sem, entretanto, dar para nada do que o padrinho pretendia fazer dele.
Tornou-se um vadio. Já moço, andava às tontas, sem Ter qualquer preocupação.
Sua primeira paixão foi despertada por Luisinha, sobrinha de d. Maria, senhora
rica que tinha por hábito discutir questões jurídicas. Mas Luisinha logo ficou comprometida com José Manuel, um
espertalhão à procura de dotes,.
O padrinho de Leonardo
morre. Ao saber dos bens herdados pelo filho, Leonardo Pataca, que após amores
mal sucedidos com uma cigana passou a viver com Chiquinha, a sobrinha da
comadre, aparece para tomar conta do filho. Leonardo revive, então, o episódio
da infância: é expulso pelo pai após uma série de desentendimentos com
Chiquinha.
Andando sem rumo, encontra
um grupo de jovens. No meio deles, reconhece um antigo companheiro de
traquinagens. Tomás da Sé, que havia sido, junto com ele, coroinha. É convidado
para hospedar-se numa espécie de cortiço, onde conhece Vidinha, mulata de cerca
de 20 anos, por quem se apaixona.
Após algum tempo, Leonardo é
preso por vadiagem pelo Major Vidigal. Mas consegue fugir antes de chegar à
cadeia. Para livrá-lo das perseguições
de Vidigal, a madrinha lhe arranja um emprego na despensa real .Mas o rapaz mete-se em encrencas ao tentar
conquistar a esposa de um companheiro de trabalho. Então é despedido.
Novamente preso, desta vez
não foge. Torna-se soldado e passa a auxiliar diretamente o Major Vidigal, nas
batidas policiais. Numa dessas diligências, é incumbido de prender um bicheiro,
Teotônio. No entanto, ao contrário do que lhe havia sido ordenado, Leonardo
auxilia a fuga do bicheiro, indo novamente preso.
A madrinha, sabendo da
prisão do afilhado, procura uma ex- amante do major, Maria Regalada, para que
esta interceda em favor do relaxamento da prisão de Leonardo, que não só é
libertado, como é promovido ao cargo de Sargento de Milícias.
Leonardo volta a encontrar
Luisinha, que ficara viúva. Casam-se e Leonardo recebe uma carta do pai, na
qual o chamava para entregar o que lhe deixara o padrinho, fortuna que o
barbeiro arranjara roubando de um capitão moribundo de um navio, e que se
achava religiosamente intacta.
FICHA DE LEITURA
Narrador:
Em terceira pessoa; trata-se de um narrador
observador, que interfere, brinca ironiza as situações vividas pelos
personagens. Os costumes e as práticas da época não escapam ao seu juízo
crítico e gozador. Não raras vezes opina a respeito do que conta com
indisfarçável tom de deboche.
Dirige-se ao leitor para pedir-lhe a cumplicidade,
saltando da terceira pessoa para a primeira do plural, em nome da manutenção do
interesse pela obra.
Personagens:
Fugindo dos tradicionais textos do Romantismo, o autor
nos apresenta personagens que não são nem proprietários nem escravos, mas pouco
considerados em sua representatividade social. À medida que lutam pela
sobrevivência, os personagens agem de acordo com a necessidade, transitando
livremente entre o bem e o mal, sem
moralismos ou escrúpulos, uma vez que suas virtudes compensam seus pecados. É o
que se verifica, por exemplo, no comportamento
do barbeiro, padrinho de Leonardo, cuja fortuna mal adquirida depois o
reabilita À medida que é utilizada nobremente, para garantir o futuro do afilhado.
Além da lei das compensações, gerada pela necessidade
da sobrevivência, há ainda outra característica interessante do comportamento
desta classe social, a que o crítico Roberto Schwarz chama de política do
favor , da qual parece nascer o famoso jeitinho brasileiro, em que uma mão
lava a outra. O compadre, assim, ajuda Leonardinho, sendo ajudado pela comadre
nesta função. A comadre, por sua vez, pede ajuda a D. Maria, e esta a Maria
Regalada, para salvar Leonardinho das mãos do Major Vidigal, que pela sedução
da ex- amante, é atraído ao universo da desordem.
Então o ‘uma mão lava a outra’, e o “jeitinho
brasileiro da ‘política do favor” somando-se à amoralidade, constituem não só os traços que diferenciam a nossa
classe popular, com também em sentido
mais amplo, caracterizam uma especificidade da cultura brasileira, que
posteriormente será desvendada por Machado de Assis.
Leonardinho:
primeiro anti- herói
dos romances brasileiros, Fruto de um beliscão e uma pisadela, não vem
de uma linhagem nobre e nem sequer a narativa lhe apresenta o sorenome.
Considerado “herói malandro” ou “pícaro”, um vagabundo contumaz que vive às
custas do padrinho; sem um emprego definido , fugindo das perseguições do major
Vidigal e vivenciando alguns envolvimentos amorosos. Encarna o tipo do amalndro
amoral que vive o presente, sem qualquer preocupação com o futuro.
Tempo e
espaço :
“Era o tempo do rei.” A narrativa se desenrola durante
o período em que D. João
VI esteve no Brasil. Distanciando-se no tempo, ganha qa dimensão de crônica ou
livro de memórias de um passado não muito remoto em relação ao tempo do
narrador. Nesse confronto entre o pasado e o presente da narração, há um tom
nostálgico, através do qual se percebe a valorização do que já passou. MAs o
passado não é visto com a idealização romântica, e sim com as minúcias dos
aspectos documentais da obra, ligados à estética realista.
Vivida no Rio de Janeiro, a história recria o espaço
urbano carioca do tempo do rei e povoa suas ruas de festas, procissões e
comportamentos populares que descambam para
a desordem(como por exemplo xeretar , através das janelas, ao casa
alheia), sendo os fatos narrados com bom humor e veia crítica, por isso
denominado “Romance de Carnavalização dos costumes”.
Linguagem :
Estilo coloquial, direto resgatando com fidelidade o
português popular da época, traço que o distingue mais uma vez dos romances
tradicionais em estilo pomposo.
A oralidade, a coloquialidade, o tom de crônica
jornalística, aproximam a linguagem desta obra
da literatura Modernista, segundo a qual
a linguagem literária deveria reproduzir a oralidade.
Estilo:
A tradição a que parece ligarem-se mais adequadamente
as Memórias é a romântica: tendência ao pessoal, à vida íntima do protagonista,
suas experiências sentimentais, evocação da história de uma época ( “era o
tempo do rei”), história de happy end. No entanto, há características
que distanciam a obra do Romantismo tradicional: classes de baixa renda,
protagonista anti-herói, cenas reais, não idealizadas, não há o maniqueísmo
romântico ( bem x mal) , sentimentalismo substituído por humorismo, estilo oral
e descontraído.
“ Vale a pena Ler de novo”:
Capítulo 3:
carnavalização dos costumes
/ Capítulo 9: o livre passeio
entre a moralidade e a imoralidade
/ capítulo 11: inclusão do leitor
na narrativa / capítulo 15: a
oralidade, os diálogos / capítulo 18: Luisinha, anti-heroína romântica.
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