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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Resumo e Ficha de Leitura - Vidas Secas!

Assunto: Vidas Secas - Graciliano Ramos


A família de retirantes, formada pelo vaqueiro Fabiano, Sinhá Vitória, dois filhos e a cachorra Baleia vara o sertão nordestino a procura de um lugar melhor. Desalentados pela fome e o cansaço, arrastam-se pelo solo empobrecido pela seca, levando consigo o pouco que lhes resta.
 O filho menor cai, sem forças para continuar e o pai, irritado, coloca-o nas costas, penalizado com a condição da família. Procura saciar a fome, sacrificando o papagaio e o preá caçado por Baleia.

Invadem uma fazenda abandonada, onde, aliviado, Fabiano se julga homem, para, em seguida, considerar-se mais um “bicho”, capaz de vencer todas as dificuldades.” Passou a tomar conta de casa alheia, do gado que restava, entendendo-se com os animais e empregando a mesma linguagem restrita a grunhidos e monossílabos, para comunicar-se com os parentes.


Quando o dono da fazenda retorna, expulsa a família do vaqueiro, que se mostra prestativo e humilde e acaba conquistando a vaga de capataz.

Um dia, Fabiano vai à cidade fazer compras e, quando toma uma cachaça em um bar, é convidado para um jogo de cartas por um soldado amarelo. Perde todo o dinheiro e sai da partida acabrunhado. O soldado, dizendo-se ofendido, pelo abandono brusco do carteado, acaba ocasionando a prisão do vaqueiro, onde é impiedosamente surrado sem Ter como defender-se, amargando a revolta.

Sinha Vitória, que não consegue realizar seu sonho de possuir uma “cama de lastro de couro”, um dia revolta-se com a rotina doméstica, os filhos e a cachorra Baleia. Mas , em seguida, resolve conservar as esperanças, imaginando diversas maneiras de obtê-la, tornando-se quase feliz.

Ao chegarem as chuvas de inverno, a família se reúne ao redor do fogão para se aquecer. É quando as crianças ouvem a conversa monossilábica e confusa dos pais, sem poder entendê-los, porque a escuridão impede de observar seus gestos e expressões.
Enquanto Fabiano vê afastado o perigo da seca, Sinhá Vitória teme o perigo da enchente.
No Natal., a família, em trajes de passeio e calçando sapatos, vai à cidade. A sensação de desconforto gerada pelas roupas e calçados apertados aumenta quando, comparados aos tipos da cidade, sentem-se inferiorizados. Os meninos e a cachorra se mostram amedrontados em meio à multidão, enquanto sinhá Vitória participa da missa e Fabiano procura um bar para embebedar-se e assim, superar a humilhação.

Na fazenda, Baleia adoece e Fabiano se vê obrigado a sacrificá-la. Com o episódio de sua morte, fica clara a condição humana a que fora alçada a personagem pelos membros da família, que sentem a perda como a de um ente querido.

Ao acertar as contas com o patrão, Fabiano sente-se lesado, mas aceita passivamente a justificativa de que a diferença era por juros devido a adiantamento recebido. Fabiano se revolta, mas não reage.

As aves em partida anunciam a proximidade de nova seca. Os animais começam a tombar de fome e sede. Com medo do futuro, Fabiano começa a pensar no soldado amarelo e no dono da fazenda, a quem identifica como “governo”. Revoltado com sua impotência, julga-se um “cabra safado”.

Com a chegada da seca, Fabiano pensa em resistir e permanecer na fazenda. A morte em número cada vez maior de animais, porém, faz com que decida fugir para outro lugar. Desconsolados, combinam partir de madrugada, para não encontrar o patrão com quem estavam endividados. Conversam para atenuar o sofrimento, enquanto caminham com a esperança de, um dia, alcançar um lugar onde “os meninos aprendessem coisas difíceis e necessárias”, um lugar “desconhecido e civilizado.”







Ficha de Leitura


* Estrutura da Narrativa: os capítulos são independentes e podem ser lidos em ordem aleatória, uma vez que foram produzidos como contos e publicados em jornais da época. Servem para dar unidade à narrativa apenas o primeiro e o último capítulos, respectivamente, “Mudança” e “Fuga”, que marcam o início e reinício do ciclo da seca.


* Foco Narrativo (onisciência prismática): narrador em terceira pessoa, em cada capítulo evidencia-se um protagonista e tudo é narrado segundo a visão de mundo da personagem em evidência.



* Tempo e Espaço : a realidade miserável do sertão nordestino e o sistema da seca como o agente antagônico da história, que torna a família de retirantes “vidas secas’, impossibilitadas de qualquer forma de ascensão. A história se passa no período entre duas secas e o romance é atemporal: tanto pode ser a década de 30 (época da publicação) como os dias atuais.


* Personagens : Fabiano, Sinhá Vitória, Menino Mais velho, Menino Mais Novo, Cachorra Baleia são os membros da família de retirantes e protagonistas da história. Observe-se o processo de animalização dos seres humanos e de antropomorfização da cachorra.

Patrão, Fiscal da Prefeitura e Soldado Amarelo são os agentes antagônicos, cada um, à sua maneira, explora a família de Fabiano.


* Elementos Estilísticos : -construção inovadora da narrativa, cujos capítulos , com exceção do primeiro e último, podem ser lidos em ordem aleatória;
- cuidado especial no tocante à linguagem – a família de retirantes tem dificuldades de fazer uso da linguagem verbal , comunicando-se através de sons guturais, grunhidos e monossílabos. Sua dificuldade de expressão é um dos grandes fatores que o condicionam à marginalidade, inclusive veem o domínio da língua como perigo e os pais censuram as crianças quando estas se demonstram questionadoras. No entanto o narrador explora seu fluxo de consciência através do discurso indireto livre. -


* Tema principal e secundários : O tema é o drama da seca no Nordeste, não só a seca como agente climático, mas o sistema social do local é responsável por produzir “Vidas Secas”. Temas secundários: coisificação ou exploração do homem como objeto do próprio homem, a falta de domínio da língua culta como fator de exclusão social, a incapacidade de verbalizar a revolta e reivindicar direitos sociais.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Livros - UFPR (2014/2015)

Olá galera vestibulanda do meu Brasil! Hoje vou postar pra vocês a lista de livros que será utilizada no vestibular deste ano na UFPR (por falar nisso cadê as datas de meio de ano hein?) 
Enfim, mostrarei aqui a lista, e logo mais,depois de terminar de ler as obras e resumi-las eu posto seus respectivos resumos pra facilitar a vida de vocês...  e a minha! Mas vale lembrar, ler o livro tem todo um gosto mágico e um aprendizado muito melhor, então se puderem/quiserem...LEIAM!



críticas, comentários, pedidos.. é só falar! 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sentimento do Mundo

Carlos Drummond de Andrade (1940)
Contexto Histórico
Sentimento do Mundo foi publicado no ano de 1940, numa pequena tiragem de 150 exemplares os quais foram distribuídos a amigos e outros escritores. Na época em fora escrito por Drummond, o Brasil vivenciava o Estado Novo de Getúlio Vargas e no plano internacional, houve o acirramento do Nacionalismo exacerbado e revanchismo decorrente do desfecho da Primeira Guerra Mundial, as relações sociais e políticas foram marcadas pelo surgimento e expansão das doutrinas do Nazismo e Fascismo na Europa.
Assim, o Estado Novo foi uma forma de regime ditatorial disfarçado pelo populismo, sendo declarado por Vargas em 1937 assim como uma nova Constituição (a Polaca) que ampliou o poder do presidente, desmobilizou os partidos de oposição e disputa com o governo. Para fortalecer o regime, Vargas valeu-se da aprovação de direitos trabalhistas e forte propaganda de manipulação/persuasão e Censura (pelo Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP), chegando a ser apelidado de “o pai dos pobres”, mas também ”mãe dos ricos”.
Assim o Movimento intelectual e artístico foi marcado essencialmente pelo questionamento da existência humana, do sentimento de “estar-no-mundo”, das inquietações social, religiosa, filosófica, amorosa e etc. Carlos Drummond de Andrade é o poeta que melhor representa o espirito dessa geração - conhecida como Geração de 30.
Sentimento do mundo (livro), de Carlos Drummond de Andrade

Análise
Publicado pela primeira vez em 1940, Sentimento do mundo é o terceiro trabalho poético de Carlos Drummond de Andrade. Os poemas deste livro foram produzidos entre 1935 e 1940. São 28 no total. Traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, tendendo para um olhar crítico e significativamente político. É uma obra que retrata um tempo de guerras, de pessimismo e sobretudo, de dúvidas sobre o poder de destruição do homem.

Escrito na fase em que o mundo se recuperava da Primeira Guerra Mundial e em que já se encontrava iminente a Segunda Grande Guerra, com a imposição do Estado Novo de Getúlio Vargas e o crescimento do Nazi-fascismo, percebe-se em Drummond a luta, a contestação, pela palavra, das atrocidades que o mundo parecia aceitar (“Tudo acontece, menina / E não é importante, menina”). Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo.

Em Sentimento do mundo, Drummond revê o fazer poético. Amadureceu o poeta individualista de Alguma Poesia, tomando consciência do mundo, apesar de não se esquecer de seu coração.

O poeta de Sentimento do mundo constata que vive em “um tempo em que a vida é uma ordem”, que vive num mundo grande, onde os homens de “diferentes cores” vivem suas “diferentes dores” e que não é possível “amontoar tudo isso/num só peito de homem”. Ele constata, arrependido, que se voltou para si e para seus ínfimos problemas:

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
("Mundo grande", Sentimento do mundo)

Mais que constatar ele se recusa a ser "o poeta de um mundo caduco", a ser "o cantor de uma mulher, de uma história". O poeta não será uma ilha, mas cantará "o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente" ("Mãos dadas","Sentimento do mundo"). O verso-cachaça dá lugar ao verso-combate, que alimenta o coração do poeta, para lhe dar forças para lutar:

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode.
Ó vida futura! nós te criaremos.
("Mundo grande", "Sentimento do mundo")

Nos poemas de Sentimento do mundo, além do traço preciso e corrosivo, próprio da escrita de Drummond, há uma imensa preocupação com os rumos que tomam as pessoas enquanto seres humanos.

Nesta obra fica claro que o individualismo está mais próximo da concordância com o modelo da situação que do protesto e que, somente unidos (“Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”), através dos mesmos sentimentos, ainda que mal se compreendam (“Ele sabe que não é nem nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza...”), os homens conseguiriam modificar o mundo:

...as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer
("A noite dissolve os homens")

Não há, entretanto, otimismo na visão do poeta. É sombria e pessimista a visão de mundo que se justapõe à esperança da revolução e da utopia. Assim, dor e esperança são os temas básicos que regem os poemas de Sentimento do Mundo. Uma dor, talvez, maior que a esperança que a contempla, ou talvez esta não esteja tão próxima dos homens. A dor é o "Sentimento do Mundo"; dor de todos os homens e que se concentra em um só – o poeta:

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
("Sentimento do mundo)

E, então, ele, o poeta, sente-se responsável pelas pessoas a sua volta; sofre por elas; sente-se elas. Como se vê em:

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
(...)

("Poema da necessidade")

O "nós" é muito empregado em Sentimento do Mundo e é através do "nós" que surgirá a esperança. Ressalte-se que ela, a Esperança, nunca está no presente, mas, sempre, no futuro, virá. Vem, assim como a dor, personificada em imagens possíveis de se encontrar em nosso cotidiano: o sorriso do operário, que caminha firme ("Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido"); a aurora, que dissolve a noite que traz o sofrimento ("Aurora, / entretanto eu te diviso, ainda tímida, / inexperiente das luzes que vais acender"); o soluço de vida, que resiste ao verme roedor de lembranças:

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
Que rebentava daquelas páginas.
("Os mortos de sobrecasaca")

Assim, os temas políticos, o sofrimento do ser humano e as guerras, a solidão, o mundo frágil, os seres solitários predominam. A dor humana está lá; o eu-lírico se resguarda e canta o outro, tão mais importante que ele próprio.
 


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O Cortiço

Aluísio Azevedo , 1890

O romance focaliza a ascensão de um português, João Romão, dono de um cortiço e uma pedreira cujos empregados, além de morar nos casebres por ele alugados, endividam-se ao comprar fiado  em sua venda. Através dessa exploração, João Romão vai-se enriquecendo, auxiliado por sua amante e empregada, Bertoleza, para quem ele havia providenciado uma falsa carta de alforria.
O maior desejo do vendeiro é conseguir boa posição social, além da fortuna, como seu patrício Miranda, que  mora no sobrado encostado ao cortiço  e é vítima da inveja de Romão, por seus costumes refinados. Movido pela ambição, o protagonista não hesita em usar os meios para acumular fortuna, roubando nos pesos e nos trocos. Assim acumularia riqueza para ficar noivo da filha do Miranda.
Enquanto ocorre o processo de ascensão de João Romão, são focalizados outros personagens, centros de pequenos enredos, mas que, no todo, funcionam como instrumentos para a máquina de renda do proprietário do cortiço. São lavadeiras, prostitutas, operários da pedreira, todos representantes de uma população marginal que vive em um ambiente degradado e corruptor.
O cortiço é o meio que parece adquirir vida própria, um personagem maior, que condiciona o comportamento dos que ali moram, como é o caso de Pombinha, menina inocente criada em colégio interno, não resistindo Às pressões do meio, é levada à prostituição, por Leónie, sua madrinha, com quem também desenvolve um relacionamento homossexual. O mesmo se dá com Jerônimo, o colono português, mestre de obras da pedreira que, vindo morar no cortiço com a esposa Piedade é arrebatado por uma paixão violenta por Rita Baiana, abandonando a família e a vida regrada que vivia, tornando-se marginal e homicida.
Depois de um incêndio no cortiço, motivado por uma vingança do cortiço Cabeça de Gato ( vingança à morte do Firmo, ex – amante de Rita ), João Romão transforma-o na “Avenida São Romão”, com uma aparência cuidada  e ordeira, enquanto a população mais baixa e miserável se reúne em outro local, reproduzindo a situação inicial do “Cortiço São Romão”, como se houvesse um ideal de preservar a típica estalagem fluminense, onde há um rolo e um samba por noite, onde se matam homens sem a polícia descobrir , viveiro de larvas ou animais no brejo de lodo quente e fumegante, fazendo brotar vidas miseráveis em meio à podridão.
Ao chegar À plena ascensão, ampliando a venda, reformando a casa, que ostentava mais do que o sobrado, refinando seus hábitos e maneira de vestir-se, João Romão prepara-se para tomar como esposa a filha do Miranda. Era preciso , então, livrar-se de Bertoleza, traste que lhe servira em outra época e agora adiava sua felicidade. Assim, denuncia  sua fuga aos antigos donos, que vão buscá-la com a polícia. A escrava, percebendo a traição, suicida-se.
Em seguida, pára uma carruagem na porta do vendeiro, trazendo-lhe o título de sócio benemérito de uma entidade abolicionista


Ficha de Leitura :

Personagens :  Todos são tipos, apresentados como problema social urbano na realidade inferior do Rio de Janeiro. Do cortiço saem personagens que estão sempre vinculados ao grupo e cuja ação resulta do meio a que fazem parte. A narrativa se constrói em lutas, porém entre membros de uma mesma classe: a burguesia dos dois sobrados e a popular dos cortiços. Ganância x ganância, exploração x exploração ( Miranda e João Romão), cada qual procurando explorar o máximo seus semelhantes. Enquanto no espaço do cortiço destaca-se a luta entre o capoeira brasileiro e a força bruta do português ( Firmo e Jerônimo), a mulata sensual contra o provincianismo da portuguesa ( Rita Baiana e Piedade), as donzelas contra a prostituição favorecida elo meio ( Pombinha e Léonie)

Narrador: em terceira pessoa, onisciente, seu propósito crítico é mostrar as mazelas morais e sociais dos habitantes de um cortiço, no Rio de Janeiro, segunda metade do século XIX, fundamentando-se na corrente determinista de Hypolite Taine, segundo  a qual o homem é produto do meio, da raça e do momento histórico.

Tempo e Espaço: embora a obra tenha sido publicada em 1890, retoma os anos imediatamente anteriores à abolição da escravatura e à Proclamação da República no Brasil , mostrando um Rio de Janeiro que se urbanizava desordenadamente.

Gênero da Obra: Naturalismo – o meio social é mais importante do que o homem e condiciona o seu caráter. Mostra uma sociedade, doente, patológica e sem conserto. Todos os que se submetem a morar no cortiço são corrompidos pelo meio corruptor.
O percurso de ascensão de João Romão fundamenta-se na Lei de Seleção Natural de Darwin , ou lei da sobrevivência do mais forte. É Assim que João Romão se apodera do Cortiço, de Bertoleza e da pedreira como veículos que lhe garantem a plena ascensão social. Daí vem a mudança de hábito, o noivado com Zulmira e a denúncia de Bertoleza aos seus donos, livrando-se do traste para que pudesse se casar com a jovem burguesa, filha do Miranda.












quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Literatura! Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

Resumo:
         No capítulo X do romance, Brás Cubas narra o episódio de seu nascimento, as emoções comuns a todas as famílias que recebem o primeiro filho: o orgulho dos pais com as primeiras palavras, os  primeiros passos ...       No capítulo XII,  vamos encontrá-lo menino de cinco anos, matreiro e inquieto, típico menino diabo; maltrata os escravos,mente, esconde os chapéus das visitas, coloca rabos de papel em pessoas graves, enfim, possui um comportamento maligno, contando com a cumplicidade do pai e as orações inúteis da mãe. O tio cônego assume o papel de crítico à educação baseada na superproteção paterna e na omissão materna.       A atuação do tio cônego contrapõe-se à vida galante e às obscenidades do tio João, um dos frequentadores da casa, que mima o garoto, ensinando-lhe muitas anedotas e malícias, assim conseguindo sua estima.       Como era de se esperar, o contexto familiar, que lhe favorece e justifica as traquinagens prenuncia o adulto egocêntrico e egoísta em que se transforma, como ele reconhece irônica e criticamente, em relação à própria educação.       Na juventude, envolve-se com Marcela, uma cortesã espanhola por quem se apaixona e que o ama durante  quinze meses e alguns contos de réis. Quando o pai toma conhecimento das aventuras do filho, manda-o à Europa para os estudos, aos quais pouco se dedica.      Por ocasião da morte da mãe, volta ao Brasil e, ainda abalado, passa a viver em retiro, na Tijuca, enamora-se da filha de D. Eusébia, Eugênia, que era bonita e coxa. Por preconceito, foge da moça e volta à cidade.       Ao retornar à vida na corte, Brás Cubas almeja casar-se com Virgília, num negócio arranjado pelo pai: era a filha de um conselheiro que lhe arranjaria o cargo de deputado. Ambos os projetos falharam: Brás Cubas perde a noiva e o cargo para Lobo Neves.     Seu pai morre pouco depois e este, herdando sua fortuna, não precisa de sacrifícios para viver. Por causa dos bens, rompe com a irmã Sabina e passa a levar uma vida solitária.       Mais tarde, consegue o amor adúltero de Virgília e retoma os laços de família.     Nessa época, encontra um amigo de infância, Quincas Borba, mendigo que se diz filósofo; este lhe  rouba o relógio e desaparece. Retorna tempos depois, enriquecido  por uma herança, devolve o relógio e tenta expor-lhe a teoria do Humanitismo, fazendo de Brás Cubas seu discípulo.     Lobo Neves, que parece desconfiar do adultério,é nomeado presidente de província e são obrigados a deixar o Rio de Janeiro. Os amantes separam-se.
     A irmã de Cubas arranja-lhe uma noiva, Eulália, sobrinha de seu marido, Cotrim. Brás Cubas vê-se dividido entre o cortejo  da moça  e a amizade  de Quincas Borba, que lhe expõe sua complicada filosofia baseada na felicidade absoluta do homem. Quando está decidido a unir-se em casamento, Eulália é vitimada por uma epidemia de febre amarela e morre.      Dois anos depois, Brás Cubas torna-se deputado e continua solteiro. Aos 50 anos revê Virgília e sente-se velho, percebe que sua vida se esgotava. O amigo filósofo o consola e anima..
      Tenta fundar um jornal em conjunto com Quincas Borba, mas fracassa nos primeiros exemplares.
       Morre Lobo Neves e reencontra Virgília sofrendo a perda do marido.
       Tempos depois, Quincas Borba parte para Minas Gerais onde queima os manuscritos da teoria filosófica, retorna louco e morre tempos depois.
       Assim, de fracasso em fracasso, conduz-se a travessia de Brás Cubas, personagem símbolo da ironia machadiana quanto ao ideal burguês de vencer na vida, especialmente representado através do Humanitismo.
       Inventar um emplasto contra a hipocondria, um remédio miraculoso que curaria todos os males da humanidade, constitui a última tentativa de Brás Cubas - o seu último projeto - sem sucesso como todos os outros - ironicamente impedido pela morte do protagonista:  ao preocupar-se com o projeto, descuida-se da saúde contraindo pneumonia ao sair de casa a fim de patentear o invento. E assim torna-se defunto autor, confessando que até o saldo que leva para  a outra vida é negativo - não teve filhos e assim não transmitiu o legado das misérias humanas.


 - Considerações Gerais.

O romance é narrado em primeira pessoa, pelo personagem protagonista Brás Cubas, que se intitula “defunto autor” e coloca,assim, em cheque os propósitos básicos das obras Realistas - a questão da verossimilança e a imparcialidade dos narradores, pois não é real um fantasma escrever uma obra, sobretudo um fantasma que está envolvido com a matéria que vai narrar, sendo dela o personagem principal.
Brás Cubas quer fazer o leitor acreditar que é onisciente, afirmando que na condição de morto já não tem nada a temer da punição humana; no entanto deixa pistas de sua falsa onisciência. No início, por exemplo, compara sua obra ao “Pentateuco”, escrito por Moisés, para em seguida afirmar que só tinham onze pessoas em seu velório. Ou seja, temos aí um narrador narcizista que escreve para se colocar numa posição de superioridade em relação ao leitor. Já no prólogo confessa não dar importância  que talvez seja lido por cinco leitores e que, se não gostarem do livro, dá-lhes um  piparote. Na verdade, o objetivo do autor é quebrar com os laços de cumplicidade comum nos textos românticos, exigindo postura crítica do leitor.
Brás Cubas conta sua história através de uma postura irônica, escondendo sua trajetória inglória, atribuindo a culpa de seus fracassos aos demais personagens. Texto Realista, na medida que o desvendamento de sua ironias permite-nos reconhecê-lo imperfeito e contraditório, como qualquer ser humano.
Enquanto personagem, Brás Cubas foi traído pela prostituta Marcela, que o amou por alguns meses e outros contos de réis, não se casou com Virgília, não foi deputado quando desejava, não chegou a ministro de estado, foi roubado pelo amigo Quincas Borba, a noiva Eulália morreu, seu jornal faliu,não teve a celebridade do emplastro, cujo projeto o levou à morte ... e até mesmo o saldo de sua vida é negativo: Não teve filhos e assim não transmitiu para a espécie humana o legado da nossa miséria. Temos o percurso do protagonista como uma enfiada de decepções e vemos, assim, aplicada na obra literária de Machado de Assis a concepção pessimista da filosofia Determinista de Schopenhauer, de que o homem está fadado ao sofrimento por pressões morais, sociais, leis físicas e até causas hereditárias.
O protagonista e narrrador do romance -egoísta e egocêntrico, irônico e com ar superior, constitui uma inversão dos heróis do mundo burguês, que aparecem na literatura realista, cujo objetivo é sempre  sair-se bem, caracterizados pela ascensão social relativizada por algum fracasso no plano afetivo. Brás Cubas não tem sucesso em nenhum setor, tornando-se antimodelo, através do qual Machado ironiza impiedosamente os valores burgueses e humanos de modo geral.
Quanto à Linguagem, há aspectos relevantes na obra que inovam totalmente os textos da literatura brasileira, tais como o diálogo crítico com o leitor; a narração fragmentária, cortada por capítulos que explicam outros, interrupções para discutir a escrita, histórias que aparentemente não mantêm relação com o enredo, enfim, elementos para exigir o esforço organizador do leitor, além da ironia à estrutura social vigente (sociedade escravocrata em descompasso com o liberalismo europeu) e o pessimismo,que reproduz uma das correntes filosóficas da época, incorporando em arte o cientificismo dominante


        - FICHA DE LEITURA .

Gênero Literário: 

            Romance Digressivo – não se prende a construir uma narrativa onde predomine a evolução das ações do enredo, mas  faz reflexões sobre assuntos que fogem ao eixo central da narrativa e uso de histórias paralelas ( Exs. “ A propósito de Botas” – cap. XXXVI : histórias de Vilaça , Marcela, D. Plácida, Prudêncio....)

Inspirado na obra Diálogo dos Mortos ( Lucinao de Samósata – Grécia – séc. II) , onde o filósofo Menipo de Gadara, depois de morto, é o protagonista que ridiculariza o mundo dos vivos . Daí  Memórias Póstumas ser denominado “sátira menipéia” .
Influências do referido romance grego: ausência de enobrecimento dos personagens; abordagem humorística de questões cruciais: a realidade, o destino, a existência;  liberdade em relação aos ditames da verossimilhança (mortos não escrevem ) ; estados de espírito aberrantes: desdobramento de personalidade, delírios, paixões descontroladas.   

Narrador: Em primeira pessoa, é o protagonista Brás Cubas, que conta a sua vida após a morte: “ não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”, ou seja, alguém que cria uma espécie de Realismo Fantástico: os mortos não têm nada a temer, podem contar toda a verdade. Mas fantasmas não escrevem!!!
Brás Cubas quer fazer o leitor acreditar que é onisciente. No entanto, deixa pistas de sua falsa onisciência. No início, por exemplo, compara sua obra ao Pentateuco, escrito por Moisés, para em seguida afirmar que só havia onze pessoas em seu velório. Narrador narcizista que escreve para se colocar numa posição de superioridade que não possui, passando a exigir postura crítica do leitor.

Personagens:
       O PROTAGONISTA, Brás Cubas, constitui uma inversão dos heróis do mundo burguês, que aparecem na literatura Realista, cujo objetivo é sempre sair-se bem, caracterizados pela ascensão social relativizada por algum fracasso no plano afetivo. Brás Cubas não tem sucesso em nenhum setor, tornando-se antimodelo, através do qual Machado ironiza impiedosamente os valores burgueses e humanos  de modo geral.
Brás Cubas  foi traído pela prostituta Marcela, não se casou com Virgília, não foi deputado quando desejava, não chegou a Ministro de Estado, foi roubado pelo amigo Quincas Borba, seu jornal faliu, não teve a celebridade do emplasto ... e até mesmo o saldo de sua vida é negativo. Não teve filhos e assim não transmitiu para a espécie humana o legado da nossa miséria. Aplica-se em sua vida a filosofia determinista de Schopenhauer, de que o homem está fadado ao sofrimento por pressões morais, sociais, leis físicas e até causas hereditárias.
OS PERSONAGENS SECUNDÁRIOS são descritos pela ótica destruidora e narcisista do narrador, todos corrompíveis e/ou marcados por alguma forma de fracasso. ( rever: Marcela, Lobo Neves, Cotrim, Quincas Borba, Virgília)

Tempo e Espaço:
A sociedade das Memórias  é das classes altas da vida carioca do século XIX. Ao todo, a época  representada  nesse romance vai do primeiro ao último reinado. Do lado oposto ao das elites, mas como propriedade destas, estende-se a escravidão, urbana e domiciliar. As elites abrangem os ricos, as pessoas de posse e de poder. Mas, gravitando em torno delas há também gente das classes médias, constituídas de funcionários, pessoas remediadas ou mesmo alguns pobres à cata de ascensão.
A sustentação do país era agrária, com ênfase na exportação de matéria-prima, e na importação de manufaturados. Como exportadores, mostrávamos a nossa primariedade. Como importadores, era a vaidade que predominava. Importávamos cultura, objetos de ouro e prata, vestimenta, companhias operísticas etc. Nossas elites eram precárias. Mas, assimilando o charme europeu, desejavam mostrar-se como liberais, como avançados, coisa que na prática não eram. A família de Brás Cubas chega a fazer um jantar para comemorar a expulsão de Napoleão da França (capítulo XII). Mas era uma grande incoerência comemorar o liberalismo europeu no seio de uma sociedade escravocrata, como era a mesma família. Nossas elites desejavam compara-se às européias. Mas como, se tínhamos escravos? Se éramos um mero país exportador de matéria-prima e dependente?

Estilo do Autor:
Há aspectos relevantes na obra que inovam totalmente os textos da Literatura Brasiliera: o diálogo crítico com o leitor; a narração fragmentária, cortada por capítulos que explicam outros, interrupções para discutir a escrita, histórias que aparentemente não têm relação com o enredo, enfim, elementos para exigir o esforço organizador do leitor, além da  ironia à estrutura social vigente (sociedade escravocrata  em descompasso com o liberalismo europeu) e o pessimismo , que reproduz a corrente filosófica Determinista Pessimista de Schopenhauer, incorporando em arte o cientificismo dominante, sem contar a ironia  às diversas correntes científicas, através da Filosofia “Humanitismo” lançada por Quincas Borba neste romance e desenvolvida no romance seguinte, paródia do evolucionismo e Positivismo, que a nada leva, a não ser o seu autor à  demência e à morte.

Estilo de Época

Do Realismo o romance apresenta o propósito de engajamento literário ( a narrativa reproduz o próprio contexto social da época em que foi escrito), os personagens são seres humanos  caracterizados por muitos vícios e poucas virtudes, a questão da infidelidade e da sociedade de aparências; a sondagem, a especulação do íntimo do homem, vítima de suas paixões e de sua vaidade.

 


Principais temas:

“ O menino é pai do homem” ( a criança traz em si o prenúncio do adulto com todos os seus vícios e defeitos);
a morte é o fim das ilusões;
pessimismo na definição da vida: a vida é um palco;

o tempo passa inexoravelmente. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Literatura! Viagens na minha terra - Almeida Garret


Resumo: Viagens na Minha Terra, Almeida Garret.  (1846)
 

“Viagens na Minha Terra”, pode ser considerado um romance contemporâneo. Um livro difícil de enquadrar em género literário, pelo hibridismo que apresenta, além da viagem que de fato acontece ( narrada do primeiro ao décimo capítulo),  paralelamente o autor conta um romance sentimental.

O conteúdo da obra, parte de um fato real, uma viagem que Garrett fez a Santarém e que teve o cuidado de situar no tempo. Além da viagem real, Garrett, faz nas suas divagações, várias viagens paralelas. Tantas e tais viagens, que numa delas o leva justamente, e pela mão de um companheiro de itinerário, a centrar-se no drama sentimental de Carlos e “ a menina dos rouxinóis”- Joaninha.

O Romance resume-se  na intricada história, de uma velhinha com sua neta Joaninha. A menina –moça, tem um primo, filho da única filha da avó, que já falecera. A moça tinha por si só a avó. Todas as semanas, Frei Dinis, vinha visitá-las, e algumas vezes trazia notícias de Carlos, que já algum tempo, fazia parte do séquito de D. Pedro.

Só que a maneira como Frei Dinis falava de Carlos, dava para  perceber algo, que só a idosa e Frei Dinis conheciam. Passara o ano de 1830, Carlos formara-se em Coimbra, e só então visitou a família, mas com muitas reticências em relação a avó e Frei Dinis. Carlos também pressentia que ele e a avó mantinham um segredo.
Carlos, nas suas andanças pela Inglaterra, já tinha eleito uma fidalga  para ele: D. Georgina, mulher de fino trato.

No entanto, a guerra civil progredia;  eram meados de 1833. Os Constitucionalistas tinham tomado a Esquadra de D. Miguel, Lisboa estava em poder deles, e Carlos era um dos guerreiros da parte Realista.

Em 11 de Outubro, os soldados estão todos por volta de Lisboa, as tropas constitucionais vinham ao encalço das Realistas e,  na batalha sangrenta, muitos ficaram feridos.
A região em torno da casa de Joaninha foi tomada por soldados Realistas, que vigiavam a passagem dos Constitucionais.

Numa das andanças de Joaninha, por perto de casa, encontra Carlos. Ele pede que não diga que ali está, mas abraçam-se e trocam juras de amor ali mesmo. Só que Carlos sabia que Georgina o esperava, e a sua mente tornou-se confusa, já não sabia se amava Georgina.

Certo dia, Carlos, depois de muita insistência de Joaninha, foi ver a avó, e ficou surpreso da cegueira da mesma. Por lá encontrou Frei Dinis, e quanto mais o olhava , menos gosto tinha.
Enquanto permaneceu por perto, Carlos e Joaninha mantiveram um  romance inocente, até que ele é ferido em combate e levado a um hospital.

 Carlos, já refeito dos ferimentos, em um hospital, revolta-se com a presença de Frei Dinis, ao que Georgina, que veio lhe visitar, conta que ele estava a salvo por interferência do frei. Carlos tem ímpetos de ferir o religioso, com ódio gratuito. Então, Dona Francisca entra no quarto e  conta que o Frei Dinis é pai de Carlos; e para se defender, de uma emboscada, Dinis mata o pai de Joaninha, e o marido da sua amante. Diz que sua mãe morrera de desgosto. E Dinis entrara para a vida religiosa como autopunição.

Com isso Carlos parte, deixando Joaninha desolada. Volta a viver com Georgina. Escreve à prima contando todo o seu romance com Georgina, e com outra duas namoradas:Júlia e Laura; o que para a moça foi um impacto terrível. Mais Tarde Carlos se fez Barão. Também abandona Georgina , que vira Abadessa.Joaninha, enlouqueceu e morreu. Frei Dinis foi quem cuidou da velha senhora até a morte.


Resumo da Crônica de Santa Iria (Santa Irene – Santarém)

Segundo o romance popular: freira de um convento beneditino. Apaixonou-se por ela Britaldo, filho do conde Castinaldo. Ele caiu enfermo e ela o consolou como mulher e ralhou como santa. Ele sarou.
Remígio, diretor do convento apaixona-se por Irene e tenta seduzi-la. Ela resiste  e o frade lhe dá uma bebida diabólica, que faz seu ventre crescer, como se estivesse grávida. Ela vai ao rio Nabão rezar e um empregado de Britaldo a mata , jogando o corpo no rio.
Misteriosamente, um sepulcro de alabastro e envolveu e as águas cobriram tudo.
Seis séculos depois, a fervorosa rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, rezou no local para ver a santa. As águas descobriram o túmulo, mas ninguém conseguiu abri-lo.
O rei mandou construir um padrão, no meio do rio, local onde aparecera a sepultura,  em homenagem à santa. As águas cobriram tudo e o padrão ficou sobressaindo por cima delas.
Passaram-se mais três séculos e meio e em 1644, a câmara de Santarém mandou fazer um pedestal e pôs em cima a imagem da santa.
Assim o viu o narrador e, Julho de 1843. O rio tinha-se retirado para um cantinho do leito e o padrão estava seco, como fica todo ano, até começarem as cheias.  (cap. 30)

Resumo da Cantiga de Santa Iria

“A santa está em casa de seus pais: um cavaleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a inocente donzela, foge a todo o correr de seu cavalo e, chegando a um descampado dali muito longe, pretende fazer-lhe violência... A santa resiste, ele mata-a. Daí a anos passa por aí o indigno cavaleiro,vê uma linda ermida levantada no próprio sítio onde cometeu o crime, pergunta de que santa é, dizem-lhe que é de Santa Iria. Ele cai de joelhos a pedir perdão à santa, que lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.” (p. 106)



Ficha de Leitura – Viagens na Minha  Terra

Gênero, Estrutura do Enredo

·         Romance Digressivo -  49 capítulos
·         Capítulos 01 ao 9 : Digressões de Viagens – os marinheiros e os ilhéus; os frades e os barões; a geografia antiga e nova – os pinhais de Santarém; arquitetura antiga e moderna (após terremoto e reconstrução Marquês de Pombal); a política monarquista e liberal.
- Capítulos 10 ao 46: a História de amor: Joaninha / Carlos/ Georgina  e mais digressões ( As Histórias de Santa Iria e a História de Portugal no contexto da revolução civil entre D. Pedro e D. Miguel)



Personagens :

Joaninha: menina de 16 anos, responsável pelos cuidados com a avó cega, D. Francisca, apaixonada pelo primo Carlos, revela seu amor quando ele volta da Inglaterra, não suporta o fato de ser abandonada pelo primo e acaba enlouquecendo e morrendo.

Georgina: moça inglesa de fino trato, apaixonada por Carlos, vem a  sua procura em Portugal ; generosa, possui o perfil da heroína romântica, abre mão do amor de Carlos ao saber que ele tem sua prima Joaninha como amor de infância, vai para o convento

Carlos: jovem, um pouco mais velho que Joaninha, de caráter temperamental, revolta-se contra a avó, que julga esconder o passado da família com a cumplicidade de frei Diniz, é criado pela avó e, quando se torna adulto, resolve deixar Santarém e viaja para a Inglaterra, onde conhece Georgina. Ao saber da Guerra Civil em Portugal, alista-se nas tropas dos liberais de D. Pedro . Considera-se um aleijão moral, por não conseguir se apaixonar apenas por uma mulher. Dividido entre o amor de Joaninha e Georgina, não fica com nenhuma das duas e vai embora para Lisboa, onde virá a ser deputado.

Secundários:

D. Francisca e Frei Diniz : a avó de Carlos e Joaninha, é cúmplice de Frei Diniz, que matou o marido da amante, mãe de Carlos e o pai de Joaninha, em uma emboscada. Sofre pelo abandono do neto, com idade avançada e os problemas emocionais, acaba se tornando cega. É quem revela a história da família  ao neto; mas, mesmo assim não obtém o seu  perdão, por ter-se submetido à ajuda de um criminoso. Símbolo das mulheres desamparadas que não têm saída para sustentar a família, por isso se submete à ajuda daquele que matara seu genro e seu filho.

Narrador: em terceira pessoa, observador,  na história de amor, uma vez que conta a história que ouviu de um companheiro de viagem;
Narrador em primeira pessoa,  durante os dez primeiros capítulos. Tem como objetivo, em suas digressões de viagem (Lisboa a Santarém)  fazer um estudo crítico de Portugal, modificado pela cultura materialista dos novos barões e também  alterado com mau gosto em seus monumentos e construções reformados , seja após o terremoto do século XVIII, pela mão do Marquês de Pombal, ou pelo período de regeneração pós Revolução Civil .

Tempo e Espaço:  a história de amor se passa em Santarém, interior de Portugal, durante o período da Guerra Civil ( D. Pedro contra D. Miguel - entre 1831 e 1833) e a narrativa da viagem se dá em 1843, durante a viagem do autor, de Lisboa a Santarém.

Características românticas: engajamento histórico (fatos da História de Portugal  durante o século XIX), exagero sentimental ; final trágico,  com o enlouquecimento e a morte de Joaninha  e a ida de Georgina para o convento.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Literatura! Memórias de Um Sargento de Milícias


Memórias de Um Sargento de Milícias Manuel  A . de Almeida.


I- Enredo
Leonardo, herói das memórias, nasceu de um romance sui generis. Leonardo Pataca, seu pai, e Maria da Hortaliça, quitandeira das Praças  de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. Conheceram-se num navio e após algumas pisadelas e beliscões foram morar juntos. Transcorridos sete meses, teve Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprimento, gordo, vermelho, cabeludo, esperneador e chorão. Era Leonardo.
Traquinas, Leonardo foi abandonado pelo pai, aos sete anos, após a fuga de Maria da Hortaliça, para Portugal, com o capitão de um navio – seu novo amante. Com um pontapé, o pai – que na época desempenhava a função de meirinho (oficial de justiça), manda-o fora de casa. Leonardo, então, é recolhido pelo padrinho, o barbeiro vizinho. Mas suas estrepolias não cessaram, fato que causou sérias desavenças entre a madrinha de Leonardo, a vizinha e parteira, e o padrinho, já que este último fazia vistas grossas às travessuras do afilhado.
O barbeiro ensinou-lhe, com muito custo, as primeiras letras, pois tencionava fazê-lo clérigo. Na escola, suas artimanhas se intensificaram. Passados dois anos, Leonardo abandonou  a  escola e ingressou, como coroinha, na Igreja, pois via ali lugar adequado para melhor prepará-lo. Mas teve lá estadia breve: o padre enxotou-o, tantas foram as desordens que provocou.
Neste ritmo, Leonardo cresceu, sem, entretanto, dar para nada do que o padrinho pretendia fazer dele. Tornou-se um vadio. Já moço, andava às tontas, sem Ter qualquer preocupação. Sua primeira paixão foi despertada por Luisinha, sobrinha de d. Maria, senhora rica que tinha por hábito discutir questões jurídicas. Mas Luisinha  logo ficou comprometida com José Manuel, um espertalhão à procura de dotes,.
O padrinho de Leonardo morre. Ao saber dos bens herdados pelo filho, Leonardo Pataca, que após amores mal sucedidos com uma cigana passou a viver com Chiquinha, a sobrinha da comadre, aparece para tomar conta do filho. Leonardo revive, então, o episódio da infância: é expulso pelo pai após uma série de desentendimentos com Chiquinha.
Andando sem rumo, encontra um grupo de jovens. No meio deles, reconhece um antigo companheiro de traquinagens. Tomás da Sé, que havia sido, junto com ele, coroinha. É convidado para hospedar-se numa espécie de cortiço, onde conhece Vidinha, mulata de cerca de 20 anos, por quem se apaixona.
Após algum tempo, Leonardo é preso por vadiagem pelo Major Vidigal. Mas consegue fugir antes de chegar à cadeia. Para livrá-lo  das perseguições de Vidigal, a madrinha lhe arranja um emprego na despensa real  .Mas o rapaz mete-se em encrencas ao tentar conquistar a esposa de um companheiro de trabalho. Então é despedido.
Novamente preso, desta vez não foge. Torna-se soldado e passa a auxiliar diretamente o Major Vidigal, nas batidas policiais. Numa dessas diligências, é incumbido de prender um bicheiro, Teotônio. No entanto, ao contrário do que lhe havia sido ordenado, Leonardo auxilia a fuga do bicheiro, indo novamente preso.
A madrinha, sabendo da prisão do afilhado, procura uma ex- amante do major, Maria Regalada, para que esta interceda em favor do relaxamento da prisão de Leonardo, que não só é libertado, como é promovido ao cargo de Sargento de Milícias.
Leonardo volta a encontrar Luisinha, que ficara viúva. Casam-se e Leonardo recebe uma carta do pai, na qual o chamava para entregar o que lhe deixara o padrinho, fortuna que o barbeiro arranjara roubando de um capitão moribundo de um navio, e que se achava religiosamente intacta. 





FICHA DE LEITURA

Narrador:
Em terceira pessoa; trata-se de um narrador observador, que interfere, brinca ironiza as situações vividas pelos personagens. Os costumes e as práticas da época não escapam ao seu juízo crítico e gozador. Não raras vezes opina a respeito do que conta com indisfarçável  tom de deboche.
Dirige-se ao leitor para pedir-lhe a cumplicidade, saltando da terceira pessoa para a primeira do plural, em nome da manutenção do interesse pela obra.

Personagens:
Fugindo dos tradicionais textos do Romantismo, o autor nos apresenta personagens que não são nem proprietários nem escravos, mas pouco considerados em sua representatividade social. À medida que lutam pela sobrevivência, os personagens agem de acordo com a necessidade, transitando livremente entre o bem e  o mal, sem moralismos ou escrúpulos, uma vez que suas virtudes compensam seus pecados. É o que se verifica, por exemplo, no comportamento  do barbeiro, padrinho de Leonardo, cuja fortuna mal adquirida depois o reabilita À medida que é utilizada nobremente, para  garantir o futuro do afilhado.
Além da lei das compensações, gerada pela necessidade da sobrevivência, há ainda outra característica interessante do comportamento desta classe social, a que o crítico Roberto Schwarz chama de política do favor , da qual parece nascer o famoso jeitinho brasileiro, em que uma mão lava a outra. O compadre, assim, ajuda Leonardinho, sendo ajudado pela comadre nesta função. A comadre, por sua vez, pede ajuda a D. Maria, e esta a Maria Regalada, para salvar Leonardinho das mãos do Major Vidigal, que pela sedução da ex- amante, é atraído ao universo da desordem.
Então o ‘uma mão lava a outra’, e o “jeitinho brasileiro da ‘política do favor” somando-se à amoralidade, constituem  não só os traços que diferenciam a nossa classe popular, com  também em sentido mais amplo, caracterizam uma especificidade da cultura brasileira, que posteriormente será desvendada por Machado de Assis.
Leonardinho:
primeiro anti- herói  dos romances brasileiros, Fruto de um beliscão e uma pisadela, não vem de uma linhagem nobre e nem sequer a narativa lhe apresenta o sorenome. Considerado “herói malandro” ou “pícaro”, um vagabundo contumaz que vive às custas do padrinho; sem um emprego definido , fugindo das perseguições do major Vidigal e vivenciando alguns envolvimentos amorosos. Encarna o tipo do amalndro amoral que vive o presente, sem qualquer preocupação com o futuro.


      Tempo e espaço :

“Era o tempo do rei.” A narrativa se desenrola durante o período em que D. João VI esteve no Brasil. Distanciando-se no tempo, ganha qa dimensão de crônica ou livro de memórias de um passado não muito remoto em relação ao tempo do narrador. Nesse confronto entre o pasado e o presente da narração, há um tom nostálgico, através do qual se percebe a valorização do que já passou. MAs o passado não é visto com a idealização romântica, e sim com as minúcias dos aspectos documentais da obra, ligados à estética realista.
Vivida no Rio de Janeiro, a história recria o espaço urbano carioca do tempo do rei e povoa suas ruas de festas, procissões e comportamentos populares que descambam para  a desordem(como por exemplo xeretar , através das janelas, ao casa alheia), sendo os fatos narrados com bom humor e veia crítica, por isso denominado “Romance de Carnavalização dos costumes”.

Linguagem :
Estilo coloquial, direto resgatando com fidelidade o português popular da época, traço que o distingue mais uma vez dos romances tradicionais em estilo pomposo.
A oralidade, a coloquialidade, o tom de crônica jornalística, aproximam a linguagem desta obra  da literatura Modernista, segundo a qual  a linguagem literária deveria reproduzir a oralidade.

Estilo:
A tradição a que parece ligarem-se mais adequadamente as Memórias é a romântica: tendência ao pessoal, à vida íntima do protagonista, suas experiências sentimentais, evocação da história de uma época ( “era o tempo do rei”), história de happy end. No entanto, há características que distanciam a obra do Romantismo tradicional: classes de baixa renda, protagonista anti-herói, cenas reais, não idealizadas, não há o maniqueísmo romântico ( bem x mal) , sentimentalismo substituído por humorismo, estilo oral e descontraído.


“ Vale a pena Ler de novo”:
Capítulo 3:  carnavalização dos costumes  /  Capítulo 9: o livre passeio entre a moralidade e a imoralidade   /  capítulo 11: inclusão do leitor na narrativa   / capítulo 15: a oralidade, os diálogos   /   capítulo 18: Luisinha,  anti-heroína romântica.